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  Título
A música popular nos filmes de Hou Hsiao-Hsien
Autor
Leonardo Alvares Vidigal
Resumo Expandido
Hou Hsiao-Hsien, cineasta de Taiwan que completou trinta anos de carreira em 2010, é hoje reconhecido como um dos principais nomes do cinema praticado na Ásia e no mundo. Uma retrospectiva recente de toda a sua filmografia, exibida por um grande centro cultural em três capitais brasileiras, possibilitou uma raríssima audiovisão panorâmica de sua obra. Hsien começou sua carreira com uma abordagem mais focada no mercado de cinema, em filmes de estrutura simples e enredos ingênuos, que obtiveram grande sucesso comercial, mas logo se desviou dessa vertente e começou a construir uma obra diversificada e rigorosa, sutilmente sofisticada, reflexiva e experimental. Um aspecto pouco pesquisado nos estudos sobre sua obra é o modo como a música, principalmente a música popular, atua como um elemento mutante e estruturante, interagindo com as imagens de uma maneira diferente a cada filme ou mesmo no interior da mesma película, constituindo blocos contrastantes. Estes arranjos audiovisuais (Vidigal, 2008) serão analisados de um ponto de vista e de escuta endógeno, buscando interações, e também comparativo.

Vento Gracioso e A grama verde de casa, da primeira fase do cinema de Hsiao-Hsien, são filmes que celebram a vida simples no campo, em contraste com a cidade esmagadora, trazendo como protagonista o ator e cantor Kenny Bee. As canções presentes no filme demonstram a “moral da história”, exaltando o valor da amizade e das boas ações, atuando ainda como “ponte sonora” entre as cenas.

Em Bons Homens, Boas Mulheres, a montagem contrapõe dois enredos: o primeiro mostra uma atriz desiludida que está trabalhando em um filme sobre a história de Taiwan – em fotografia colorida - e no segundo vemos e ouvimos a película onde ela atua - fotografada em preto e branco. Há também uma separação nítida entre o tratamento musical da história da atriz – sempre com música amplificada e “indiferente” (Chion, 1994), diegética – e o filme dentro do filme, onde se ouve apenas música pós-sincronizada, não-diegética.

O filme O Mestre das Marionetes apresenta uma montagem de estrutura similar, mas introduz uma abordagem documental, pois alterna o depoimento real do titereiro Li com reconstituições do que ele conta. O tratamento documental contamina as reconstituições, com a predominância do som direto, sincronizado in loco com a imagem. Para tratar destes dois filmes é necessário fazer uma crítica à nomenclatura que divide a presença sonora em “diegética” e “não-diegética” e tecer uma justificativa teórica para introduzir os termos “sincronizada” e “pós-sincronizada”, usados neste artigo.

Em uma de suas películas mais recentes, Três Tempos, Hsiao-Hsien fez novas experiências na relação entre a música amplificada e as belas imagens projetadas. O filme é dividido em três episódios, sempre protagonizados pelo mesmo casal, Cheng Chang e Shu Qi, mas em papéis bem diferentes, assim como são distintas as paisagens sonoras montadas pelo cineasta. No primeiro, Tempo de Amor, passado nos anos 1960, a canção “Smoke gets in your eyes” (The Platters) compõe um painel onde a memória e os sentimentos trazidos pela música se entrelaçam. No segundo, Tempo da Liberdade, a concepção audiovisual é mais complexa. A história se passa no início do século XX e mostra o relacionamento entre um diplomata de Taiwan e uma concubina, onde o cineasta ousa apresentar um filme de época que é montado quase inteiramente à maneira do cinema silencioso daquele tempo, com intertítulos para narrações e diálogos, além de um piano quase onipresente, menos durante as canções chinesas cantadas ou dubladas por Shu Qi. No terceiro episódio, nos dias atuais, ela também é um cantora e vive um triângulo amoroso comentado nas letras que entoa.

As experiências trabalhadas por Hou Hsiao-Hsien, nos diversos arranjos audiovisuais que compõem os filmes de sua autoria, se dão a ver e a ouvir como um rico manancial para a pesquisa e a análise de problemas teóricos e práticos da interação entre som e imagem.
Bibliografia

CHION, Michel. Audio-vision: sound on screen. New York: Columbia University Press, 1994.

CORNER, John. Sounds real: music and documentary. Popular Music. Volume 21/3. Cambridge: Cambridge University Press, 2002 pp. 357–366

POWRIE, Phil. The fabulous destiny of the accordion in French Cinema. In: Powrie, Phil e Stillwell, Robyn (orgs.). Changing Tunes: the use of pre-existing music in film. Burlington: Ashgate, 2006

RUOFF, Jeffrey. Conventions of Sound in Documentary. In: Altman, Rick (org.). Sound Theory/Sound Practice. Nova Iorque: Routledge, 1992

SCHAFER, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: UNESP, 2001

VIDIGAL, Leonardo Alvares. “’A Jamaica é aqui’: arranjos audiovisuais de territórios musicados. Departamento de Comunicação Social, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte: UFMG, 2008 (Tese de Doutorado)

WEIS, Elisabeth e BELTON, John (orgs.). Film Sound – Theory and Practice. Nova Iorque: Columbia University Press, 1985