/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O personagem anônimo na filmografia documental de Eduardo Coutinho
Autor
Caroline de Aragão Bahia Martins
Resumo Expandido
A partir de depoimentos atrelados ao testemunho do cotidiano e das histórias de vida pessoais de anônimos, a filmografia documental de Eduardo Coutinho tem por vocação elucidar a voz do homem comum. O interesse pioneiro em contar histórias, partindo justamente do indivíduo historicamente silenciado por sua invisibilidade social, figura o diretor como um marco para o documentário brasileiro e representa o estímulo à introdução de um novo universo temático de exploração no gênero. O modo singular na forma de arquitetar as relações de encontro e de promover situações de discurso são marcas distintivas de um cinema que sustenta toda sua força expressiva na palavra que interage, que negocia e que aproxima. O ato de mover a obra fílmica por histórias narradas necessariamente por anônimos se tornou o traço caracterizador da obra do diretor e conferiu a ele por excelência a capacidade de extrair substratos da experiência social a partir de quem efetivamente a experencia. Principalmente no que se refere à filmografia produzida até o ano de 2005, com O fim e o Princípio (2005), é possível vislumbrar as amostras mais exemplares do trabalho e exploração da subjetividade do sujeito comum e o surgimento de um novo papel social deste indivíduo, ao menos no que tange os limites da significação diegética. Seja na introdução do popular, com o filme Santa Marta: duas semanas no morro (1987), dos moradores do lixão, com Boca de Lixo (1992); do homem mediano, com Edifício Master (2002) ou do homem interiorano, com O Fim e o Princípio (2005), Coutinho incorpora os personagens num dimensionamento singular, do qual as “fórmulas de homogeneização” usualmente utilizadas pela grande mídia são incapazes de os ilustrar. Ao contrário, esse dar vazão a uma multiplicidade de vozes dá abertura à percepção, pelo espectador, de que existem pessoas com sonhos, desejos, alegrias, desencantos, enfim, toda uma sorte de sentimentos e paixões, próprios à individualidade do ser humano. O alcance da centralidade do exercício dialógico com o homem comum sugere, portanto, um movimento de filiação ao discurso do sujeito da experiência. Há por trás das micro-histórias vestígios de um modo peculiar de se enxergar e de se conceber esse indivíduo, através de um conjunto de escolhas e métodos que seguramente não são aleatórios. Essa tentativa de aproximação com o desconhecido abre um campo de possibilidades que, em detrimento de tantas outras, implicam tomadas de posição baseando-se em escolhas de ordem estética, ética e ideológica específicas. Não há como dissociar, então, o ajustamento evidente entre as obras fílmicas de Eduardo Coutinho e a sua posição em relação à lógica de representação dominante desse indivíduo. Isso significa afirmar que a escolha em utilizar um modo de tratamento destoante da lógica difundida no campo do poder, sobretudo pelas relações de força das instâncias midiáticas, está associada a um conjunto de crenças e disposições que implicam inserir novas estratégias de enunciação deste personagem. Trata-se do sujeito escolhido que se firma e se funda sob o regime da alteridade e que está submetido a uma confluência de situações e escolhas, conscientes e não-conscientes, que viabilizam (ou não) a concretude da obra fílmica. A aparição deste personagem na filmografia de Eduardo Coutinho se confunde com o período que registra um maior grau de definição estilística da trajetória do diretor no campo documentário. E, embora haja um movimento de perda parcial das noções de anonimato e uma imersão efetiva de atores profissionais no interior da narrativa entre as suas mais recentes produções, o surgimento desse novo olhar não suprime nem descarta a importância do sujeito anônimo. A busca pelas figurações, falares e modos de invenção do cotidiano deste personagem permanece uma investigação legítima e sua reflexão teórica aponta valorosos indicativos para a concepção da obra fílmica enquanto um discurso polifônico sobre o mundo.
Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte: a Gênese e Estrutura do Campo Literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. BERNADET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: 1, Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. COUTINHO, Eduardo; XAVIER, Ismail; FURTADO, Jorge. O sujeito (extra) ordinário. In: LABAKI, Amir & MOURÃO, Maria Dora, (orgs). O Cinema do Real. São Paulo: Cosac Naify, 2005, p. 97-141. FIGUEIRÔA, A.; BEZERRA, C.; FECHINE, Y. O documentário como encontro. In: Galáxia – Revista transdisciplinar de comunicação, semiótica e cultura. São Paulo, nº 6, p.213 a 229, outubro 2003. LINS, Consuelo. O documentário de Eduardo Coutinho: televisão, cinema e vídeo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. São Paulo: Papirus, 2005. RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal... o que é mesmo o documentário?. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2008.