/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Ficção e documentário: analisando o falso documentário Recife frio
Autor
Filipe Brito Gama
Resumo Expandido
Os documentários possuem uma série de possibilidades estilísticas a disposição dos realizadores, não existindo uma “receita” para sua prática. A estruturação da ideia para representação do mundo histórico pode ser trabalhada através de uma grande quantidade de recursos, métodos, códigos, artifícios, etc. Porém, algumas dessas possibilidades de criação acabam se tornando recorrentes dentro da composição narrativa do gênero, podendo-se perceber o uso repetitivo de uma série desses códigos em diversos filmes.

Alguns cineastas então pensaram em trabalhar a estética documentária em uma perspectiva ficcional, fazendo o filme “apresentar-se como um documentário, só pra revelar-se uma fabricação ou a simulação de um documentário” (Nichols, 2005, p. 50). Esse tipo de obra é chamado de mockumentaries ou falso documentário e baseia-se na habilidade do realizador de criar uma verdade documental dentro do filme, embora não trate de pessoas e objetos reais, sendo construída grande parte das vezes de forma irônica e satírica.

Os falsos documentários procuram então utilizar procedimentos narrativos clássicos do gênero, como imagens de arquivo, entrevistas e depoimentos, utilização da narração (voz over), fotografias, criando um universo específico para evolução da trama. Esses filmes podem construir argumentos convincentes, possibilitando assim gerar dúvidas na audiência sobre a consistência dos fatos apresentados, como afirma Arlindo Machado (2005, p.18) “estávamos tomando por documentário o que era, na verdade, um filme de ficção” Mas geralmente eles não escondem sua ficcionalidade, como por exemplo, Zelig ou This Is Spinal Tap, que fazem uma paródia do gênero.

A televisão também é alvo constante de paródias documentais, como afirma Matheus B. Emérito em sua dissertação sobre o tema. Utilizando a divisão que Arlindo Machado faz sobre os gêneros da televisão, encontra-se o “telejornal e as transmissões ao vivo”. Existe um estreitamento entre os trabalhos realizados nos telejornais, no caso das reportagens, e os documentários, principalmente pelos códigos utilizados em cada um. Porém Ramos (2008, p. 59) afirma que além do caráter autoral pouco perceptível nas reportagens atuais, existe outra série de aspectos que distanciam as duas formas audiovisuais. Emérito (2008, p. 61) categoriza dois tipos de reportagem, a mais curta, apresentada nos telejornais, com um caráter mais imediato, e as mais longas e complexas e que se aprofundam mais em seus temas, como “documentários para TV”. São essas que podem assumir o caráter de falso documentário.

O curta-metragem “Recife Frio” não teve veiculação pela televisão, porém trabalha na construção de um falso documentário se baseando na estrutura desses documentários para TV, programas ou reportagens mais longas. É construído como uma espécie de programa para um canal estrangeiro e tem como abordagem principal uma frente fria inflexível na cidade do Recife, modificando a sociedade local nos seus mais variados aspectos.

Para mostrar essa “realidade”, o diretor Kleber Mendonça Filho utilizou-se de variados códigos do gênero, como a entrevista, a narração em voz over, as fotografias, imagens de arquivo, filmagens in loco, matérias provenientes de jornais, até imagem a partir do youtube. Esses procedimentos são empregados para representação da paródia documental, deixando claro seu caráter ficcional por tratar de uma situação absurda e que é de conhecimento comum seu não acontecimento. Vale-se de argumentos irônicos e sarcásticos e recorrendo constantemente a um contexto crítico.

Ao atingir diferentes temas da sociedade dentro dessa nova paisagem recifense, o realizador busca pontuar críticas que estão presentes de fato na capital pernambucana, e em grande parte das cidades brasileiras. A forte desigualdade social, a descaracterização urbana, a modificação dos aspectos culturais de tradição, da arte popular, a rígida estrutura familiar, enfim, a transformação caótica e acelerada da cidade.

Bibliografia

EMERITO, Matheus. Barbosa. O falso documentário. 2008. 113 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.



MACHADO, Arlindo; VÉLEZ, Marta Lúcia. Documentiras y fricções: O lado escuro da lua. Revista Galáxia. São Paulo: nº 10, dez 2005, pp. 11-30.



NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Trad.: Mônica Saddy Martins. Campinas, SP: Papirus, 2005. 270p.



RAMOS, Fernão Pessoa. Mas Afinal... o que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2008. 447 p.