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  Título
Errâncias Digitais: A viagem em estrada para Ythaca e Além da estrada
Autor
Fabiano Grendene de Souza
Resumo Expandido
Esta comunicação faz parte de um estudo que almeja investigar a representação da estrada em filmes brasileiros realizados e exibidos digitalmente, a partir de 2009. Se o road movie tem sido um gênero praticado assiduamente em obras de orçamento reduzido, interessa aqui abordar dois exemplares deste tipo de produção: Além da Estrada (Charly Braun, 2010) e Estrada para Ythaca (Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricarto Pretti, 2010). Tal análise pretende evidenciar como estes filmes partem de pressupostos da representação modernista para apresentarem suas visões particulares sobre a questão da viagem. Apesar de muito diferentes entre si, as duas obras têm em comum a negação da narração clássica (BORDWELL, 1985), utilizando personagens pouco desenvolvidos, inseridos em uma narrativa que abdica das relações de causa e efeito e de grandes viradas de roteiro. Além disso, a incorporação do acaso (BURCH, 1992) e a filmagem em locações (BORDWELL, 2008) são outras características que remetem à poética modernista. Ao mostrar quatro personagens que partem em viagem para esquecer da morte de um amigo, Estrada para Ythaca valoriza o desdramático, com uma travessia marcada por pequenos acontecimentos, captados em planos-sequências, com a câmera praticamente estática. Junte-se a isso, a auto-reflexividade: é a partir de uma citação explícita de Vento do Leste (Grupo Dziga Vertov, Le Vent d’Est, 1970), aludindo justamente à cena em que Glauber Rocha aparece em uma encruzilhada, que Estrada para Ythaca posiciona-se como um libelo em favor do cinema autoral, livre das imposições de mercado. Com esse arcabouço, o filme constrói uma estrada abstata, um road movie metafísico. Através da análise da cena em que os personagens cantam a música Divino Maravilhoso, de Gilberto Gil, pocura-se salientar como os elementos cinematográficos combinam-se para que a purgação da morte, a amizade, e a transcendência via alteração de consciência, sejam mostradas como facetas de um périplo marcado pela inquietude. Ao mesmo tempo, a partir desse mesmo instante podem ser traçados paralelos com outros road movies brasileiros, como Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (Marcelo Gomes e Karin Aïnous, 2009) e Árido Movie (Lírio Ferreira, 2006). Já Além da Estrada flagra o início do romance de dois personagens que se conhecem quando chegam ao Uruguai. A dupla de estrangeiros – ele é argentino, ela, belga – é vista muitas vezes como em um “melodrama moderno” (KOVACS, 2007). Se não há o mesmo sentimento de vazio próprio a um certo estilo de Michelangelo Antonioni, o que se vê é a criação de passagens melancólicas, calcadas em procedimentos consagrados pelo realizador italiano: os planos gerais que naufragam personagens diminutos perante a paisagens amplas e desoladas alternam-se com tomadas em que a câmera, muitas vezes em plongée, aproveita as linhas do espaço arquitetônico para criar uma atmosfera de aprisionamento dos protagonistas. Mas ainda há um olhar documental em Além da Estrada: a maioria dos personagens que a dupla encontra pelo caminho conta histórias sobre a região; as inúmeras tomadas feitas de dentro do carro criam um fluxo próprio, quase independente da história; e algumas cenas dos protagonistas parecem inventadas por eles mesmos. Realizado por um brasileiro, Além da Estrada parece uma volta ao passado, a terras perdidas no tempo. Examinando a última cena, procura-se sublinhar como um filme que mostra imagens de fronteira e personagens falando diversas línguas, parece se aprofundar antes de tudo sobre o território íntimo, sobre os sentimentos que sobrepujam os acordos políticos. Ao contrário de tantos road movies recentes que tentam mapear as contradições de uma região (MAZIERSKA, RASCAROLI, 2006), Além da Estrada opta pela radiografia da afetividade e dos momentos únicos. Por isso, a cena final ainda inspira a reflexão sobre como Uruguai e Ythaca são lugares tão próximos e relevantes ao cinema brasileiro.



Bibliografia

BORDWELL, David. Narration in the Fiction Film. Londres/Nova York: Routledge, 1985.

BORDWELL, David. Poetics of Cinema. Londres/Nova York: Routledge, 2008.

BURCH, Noël. Praxis do Cinema. São Paulo: Perspectiva, 1992.

COHAN, Steven. HARK, Ina Hae. The Road Movie Book. Londres/Nova York: Routledge, 1997.

KOVACS, András Bálint. Screening Modernism: European Art Cinema, 1950-1980. Chicago/Londres: The University of Chicago Press, 2007.

LADERMAN, David. Driving Visions: exploring the road movie. Austin: University of Texas Press, 2002.

MAZIERSKA, Ewa. RASCAROLI, Laura. Crossing New Europe: postmodern travel and the European road movie. Londres: Wallflower, 2006.

PAIVA, Samuel. A Propósito do Gênero Road Movie no Brasil: um romance, uma série de TV e um filme de estrada. In: Revista Rumores, São Paulo, v.1, ed.6, set/dez, 2009.

VANOYE, Francis. Scénarios modèles, modèles de scénarios. Paris: Armand Colin, 2005.