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  Título
Entreatos: representação histórica e mecanismos de auto-representação
Autor
Clara Leonel Ramos
Resumo Expandido
O objetivo deste trabalho é analisar o documentário “Entreatos”, de João Moreira Salles (2004), que retrata os bastidores dos momentos finais da campanha de Lula à Presidência da República em 2002. Nesta análise buscarei problematizar a o filme como documento/monumento histórico, a partir das tensões que se estabelecem entre o tipo de discurso o filme busca construir e o desejo de auto-representação dos personagens que dele fazem parte.



João Moreira Salles acompanhou a campanha de Lula entre 25 de setembro a 27 de outubro de 2002, trabalhando numa abordagem predominantemente observacional: uma câmera que observa sem interferir, raríssimos momentos de entrevista, sem uso de trilha ou narração. Ao mesmo tempo o filme dialoga também com outras estratégias narrativas, mais reflexivas, explorando a presença da equipe e revelando a dimensão negociada do processo de captação.



Assim, por suas características internas, “Entreatos” dialoga com uma tradição objetivista da historiografia de análise do filme documentário – especialmente o filiado à tradição do direto – como fonte histórica. Desta forma, uma das questões levantadas no processo de análise é a relação que se estabelece entre o filme e o momento histórico que ele retrata, com as tensões e potencialidades trazidas pelo registro audiovisual. De imediato, o valor de documento histórico do filme aumenta a partir do momento em que Lula é eleito. O filme oferece ao espectador a chance de reavaliar, ou de olhar com certo distanciamento, alguns dos principais acontecimentos da história recente do país, quando pela primeira vez o PT chega à Presidência.





Ao mesmo tempo, a análise busca investigar o desempenho dos personagens retratados, em especial o próprio Lula, e a tensão entre suas estratégias de auto-representação e as estratégias discursivas do autor. Nesse momento, serão importantes as noções de “ator natural”, apresentada por Sérgio Santeiro, a de “ator social”, proposta por Nichols, ou com a de auto-mise-en-scène, cunhada por Claudine de France e explorada por Jean-Louis Comolli. Ou ainda, como o que Comolli denomina a “inscrição verdadeira”, espécie de rastro do real e ligação indissolúvel entre o discurso e os corpos filmados, captada pela câmera.



Assim, o comportamento de Lula em relação à câmera e ao filme, nos ajuda a refletir sobre como este personagem vai se construindo através de sua representação de si mesmo e da articulação discursiva do filme. Sua trajetória ao longo da narrativa é marcada por sua aproximação gradual do grande momento de mudança de sua vida – sua eleição como presidente – que é ao mesmo tempo previsível (no contexto da campanha, em que Lula nunca esteve ameaçado) e totalmente surpreendente, se pensada em termos históricos.



Entre os elementos que se destacam no desempenho de Lula estão sua uma óbvia facilidade para lidar com a câmera e seu inegável carisma natural, que se reflete tanto na sua persona política quanto no fato de ele ser sempre o centro de gravidade do filme. Para além desta suposta atração natural que Lula parece gerar, que é endossada pelo filme, a câmera tem sobre Lula uma função claramente catalisadora da fala e Salles incorpora essa dimensão fabuladora do personagem à narrativa do filme.



O texto trabalha com a hipótese de que o discurso histórico construído por “Entreatos” seja resultado da tensão entre as intenções de autor e personagem e que a construção desta personagem se dá ao mesmo tempo através da performance do sujeito filmado e das estratégias enunciativas empregadas pelo filme. Assim, o documento/monumento fílmico refletiria uma intencionalidade partilhada entre autor e sujeito filmado. No caso de “Entreatos”, Salles e Lula constroem uma narrativa fundamentada do momento político em que o filme é realizado e que se pretende um documento a ser re-significado pelo espectador, inserindo na história da política brasileira a participação de Lula como ator político.

Bibliografia

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008; FERRO, Marc. O filme: uma contra-análise da sociedade? In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre (orgs). História: novos objetos. Rio de Janeiro, Franciso Alves Ed., 1976, p. 199-215; FRANCE, Claudine de. Cinema e Antropologia. Campinas, SP, Editora da Unicamp, 1998.; MACDOUGALL, D. Transcultural cinema. Princeton, Princeton University Press, 1998. pp. 25-61.; NAPOLITANO, Marcos. A história depois do papel. In: PINSKY, Carla B. Fontes Históricas. São Paulo, Contexto, 2005, p 235-289.; NICHOLS, Bill. Introdução ao Documentário. Campinas, SP, Papirus, 2005; ODIN, R e LYANT, J. C. (ed.): Cinémas et réalites. Saint-Etienne: Universidade de Saint-Etienne, 1984 ; ROMANO, Ruggiero (org). Enciclopédia Einaudi, Memória-História. S.l.p., Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984, vol. 1; WHITE, Hayden. Meta-história. São Paulo, Edusp, 1995