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  Título
Imagens da cena: o uso de novos dispositivos no teatro contemporâneo
Autor
Gabriela Lirio Gurgel Monteiro
Resumo Expandido
De Gertudre Stein e suas peças-paisagens, passando por Robert Wilson que soube tão bem defendê-las, à Artaud, Vitez, Craig, Brecht, Muller, o teatro caminhou para uma autonomização, libertando-se paulatinamente da normatividade que imperava no “emprego dos recursos teatrais a serviço do drama”(LEHMANN, 2007, p.81). A crise do drama moderno provoca a ruptura com o textocentrismo, lançando o teatro ao campo das experimentações e na busca de parceria com novas formas de arte.

Sabemos, pela experiência, e ao analisar a teatralidade como signo histórico, que as mudanças na arte cênica e seus efeitos foram muitos: o aprofundamento da noção de espaço-tempo, de profundidade, volume e densidade, que vão além da apropriação do texto e do jogo cênico dos atores, como disse Roland Barthes: “É o teatro, menos o texto (...) um espessamento de signos e sensações” (BARTHES, 1964, p.41) ou, ainda, nas palavras de Orson Welles, o teatro é “uma mistura de irrealidade e de verdade” (WELLES, 1991, s/p). Mas é importante ressaltar que muitos desses avanços na pesquisa teatral foram influenciados pelo cinema, como, por exemplo, a investigação de Bertold Brecht através da utilização do modelo de “Scarface” para “Arturo Ui”, suas experimentações com Kuhle Wampe, Pabst e Lang; a apropriação de imagens realizada por Meyerhold em Les Aubes (1920), as projeções de Piscator, entre muitos outros relatos. O teatro pegou emprestado do cinema elementos épicos e gestuais, procedimentos de montagem, materiais documentários e até mesmo o próprio filme (BRECHT, 1972, p.467).

Interessa aqui investigar as influências cinematográficas a partir do uso de novos dispositivos na cena, em particular em espetáculos que expõem narrativas autobiográficas. Não é possível refletir sobre o teatro hoje sem pensar na influência crescente das novas tecnologias, seja no uso de telas, seja no desenvolvimento de novas tecnologias ligadas à iluminação, à criação de cenários, ao tratamento do espaço – desmaterialização, verticalização, enquadramentos sofisticados - devido às projeções de imagens, fixas ou não. No mundo contemporâneo, dominado por uma cultura visual e seus simulacros, as imagens cênicas devem ser investigadas como uma interrogação da nossa capacidade de enxergar a realidade através de um outro viés.

Baudry discorre sobre o “efeito cinema” que está presente não só dentro, mas fora das salas de exibição. A obra digital multiplica espaços possíveis, as artes performáticas, interativas se mesclam, por isso torna-se relevante explorar de que forma a teatralidade permanece presente para além dos dispositivos e procedimentos fílmicos utilizados. “Cinema do dispositivo, cinema experimental, arte do vídeo, cinema expandido e cinema interativo” são experiências que dialogam com o conceito de teatralidade, se tomarmos como ponto de partida a idéia de um excesso de realidade a que se referia Bazin.

As encenações contemporâneas ganham um novo redimensionamento no sentido de buscar outras convergências, tomando a experiência teatral como ponto de partida, a fim de discutir de que forma a experiência cênica é representada em diferentes espaços e propostas. Verificam-se as relações entre as novas tecnologias e a produção de imagens como forma de construção narrativa. Desde os anos 70, com experiências de Bob Wilson e das vanguardas italianas, fala-se em “teatro–imagem” ou “teatro de imagens”.Craig, Meyerhold, Artaud se auto-definiram como criadores de imagens, abrindo um vasto campo de debate em torno das funções da palavra e da imagem na composição de um espetáculo. Referências picturais e cinematográficas compõem documentos cênicos criados a partir de experiências e relatos pessoais dos atores/diretores. Alguns desses espetáculos serão analisados aqui, como "Otro"de Enrique Diaz e "Festa de separação", de Janaina Leite e Fepa.
Bibliografia

CANCLINI, Nestor García. Diferentes, desiguais e desconectados. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2009.

CARDOSO, Bruno de Vasconcelos. Voyeurismo digital: representação e (re)produção imagética do outro no ciberespaço. In: Devires imagéticos. A etnografia, o outro e suas imagens. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009, pp. 154-178.

DA COSTA, Luiz Cláudio (Org.). Dispositivos de registro na arte contemporânea. Rio de Janeiro: Contra Capa/Faperj, 2009.

DE FARIAS, Francisco Ramos. Acontecimento traumático: fraturas da memória e descontinuidade histórica. In: As dobras da memória. Rio de Janeiro: Ed.7 Letras, 2008, pp. 101-112.

DUBOIS, Philippe. Um “efeito cinema” na arte contemporânea. In: Dispositivos de registro na arte contemporânea. Rio de Janeiro: Contra Capa/Faperj, 2009, pp. 179 - 216.

FERNANDES, Silvia. Teatralidades contemporâneas. In: Texto e imagem: estudos de teatro. Rio de Janeiro: Ed. 7 Letras, 2009, pp. 9-28.

LEHMANN, Hans-Thies. Teatro Pós-Dramático. São Paulo: Cosac Naify, 2007.