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  Título
Um tigre de papel: as narrativas falseadas e a denegação do espectador
Autor
Julia Gonçalves Declie Fagioli
Resumo Expandido
O presente trabalho tem como objetivo analisar a forma como o que vem sendo chamado de documentário falso poderia se apropriar da linguagem canônica da narrativa documentária tornando mais complexa a relação entre a crença e a dúvida (denegação) do espectador. Para tanto, pretende-se analisar o filme Um tigre de papel (Luis Ospiña, Colômbia, 2007).

O cinema documentário carrega um estatuto de verdade. O modo como se constrói a narrativa confere credibilidade. No entanto, não se pode tomar o conteúdo de um documentário como verdade absoluta, uma vez que é subjetivamente produzido. Apesar da idéia de verdade associada ao documentário, o fato de mostrar algo que não é real não o desqualifica como tal. Nele, a verdade se relaciona com a crença. Há, na construção da narrativa documentária, vários aspectos que conferem credibilidade ao discurso. O primeiro deles são as pessoas reais entrevistadas, que se tornam fonte de verossimilhança e credibilidade. Porém, em uma entrevista, podem-se fazer com que afirmações falsas sejam tomadas como verdadeiras.

Outro aspecto que confere ao documentário um alto grau de verossimilhança é a imagem de arquivo. Esse tipo de imagem possui natureza lacunar, o que implica que a sutura feita pela montagem pode conferir sentido a elas, mesmo que seja falso. Sobre a montagem, Gilles Deleuze (2007) afirma que ela é capaz de criar uma imagem do tempo e de transformar um presente instável em um passado estável. Logo, com a montagem, seria possível também desestabilizar um passado ou colocar no presente um passado falso, transformando o sentido das imagens. A imagem de arquivo, montada e utilizada no cinema documentário, pode ser manipulada, de forma a falsear a narrativa.

A descrição e a narração de uma imagem de arquivo podem ser posteriores a ela e sugerir um sentido diferente. Deleuze, ao desenvolver a teoria sobre as potências do falso, aponta para a importância desses dois aspectos. Logo, um passado pode ser verdadeiro sem, necessariamente, ser verdadeiro: ele já foi possível. Dessas relações, Deleuze desenvolve o que seria a potência do falso como a possibilidade de coexistência de passados não necessariamente verdadeiros. A falsificação das imagens, no documentário, propiciaria também a falsificação do discurso. Na possibilidade de invenção e fabulação, confundem-se as distinções entre ficção e realidade, tornando as narrações falsificantes e as narrativas, simulações.

Para Jean-Louis Comolli (2008), todo filme de ficção possui algo de documentário, pois sempre é filmado sob o regime da inscrição verdadeira. Já no documentário, há uma transformação mútua entre o cinema e o mundo, que acaba por anular as distinções entre o documentário e a ficção e entre o verdadeiro e o falso no cinema. A partir desse olhar às imagens, Comolli afirma que os espectadores passam a viver sob um regime de denegação, ou seja, sempre entre a crença e a dúvida: “crer sem deixar de duvidar, duvidar sem deixar de crer”. O que o cinema faz, então, é colocar em dúvida uma realidade à qual já estamos apegados – denegações. O espectador torna-se o sujeito da experiência do cinema. Constitui-se um jogo entre o visível e a crença.

Há um tipo de documentário que coloca propositalmente o real e a crença em jogo. São os documentários falsos, que usam a linguagem documentária tradicional para garantir credibilidade. Em Um tigre de papel, ao contar a história de um personagem fictício – o artista e ativista político Pedro Manrique Figueroa –, Luís Ospiña retoma vários fatos reais e históricos do período da ditadura colombiana. Ao usar imagens de arquivo, confere credibilidade e legitimação. A narrativa é construída através da narração, dos depoimentos de pessoas reais que viveram a ditadura e de personagens fictícios. O filme começa com um tom sério e vai ganhando um tom humorístico para, ao final, revelar que o personagem foi inventado. Essas estratégias são utilizadas com o objetivo de dar verossimilhança ao discurso.

Bibliografia

CHAMBAT-HOUILLON, Marie France. Um falso na televisão? Da mentira à fraude: O exemplo do documentário Opération Lune. In: GOMES, Itania. Televisão e Realidade. Salvador: EDUFBA, 2009.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

DELEUZE, Gilles. As potências do falso. In: DELEUZE, Gilles. Cinema II. A Imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2007.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Images in spite of all. Four photographs from Auschwitz. Chicago: University of Chicago Press, 2008.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal... O que é mesmo o documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008.