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  Título
Os rasgos e o tecido: a política da arte em Inútil, de Jia Zhang-ke
Autor
Isaac Pipano Alcantarilla
Resumo Expandido
Talvez não haja no mundo lugar onde o capitalismo tenha efetuado reconfigurações tão intensas, ou mesmo violentas, como o que se deu na China na brevidade das últimas décadas. De economia planificada a mercado aberto articulado a processos ocidentais, o país é afetado e afeta à medida que produz novas formas sensíveis de vida e de organização do espaço. Há uma tensão evidente entre o passado tradicional, na subtração gradual de práticas políticas, econômicas e, por que não, estéticas, conformadoras de certa identidade chinesa, solapadas progressivamente por diferentes modos de atuação de um poder que cristaliza outros mundos. Poder que altera sistematicamente a paisagem e os modos de ocupação pelos indivíduos, inventa recortes e deslocamentos e, assim, perturba o sensível – as linhas definidoras dos possíveis, comuns e exclusivos, do que é dado a sentir e dizer (RANCIÈRE, 2009). As operações de desterritorialização e territorialização do capitalismo criam uma singular desurbanização sem urbanidade. O campo e a cidade, num vertiginoso crescimento, intenso e descontrolado, tendem a espaços contíguos, indiscerníveis.

Nesse contexto, o cinema torna-se peça fundamental ao esquadrinhar novas formações. Enquanto as luzes da cidade e os monumentais projetos arquitetônicos se veem ao longe, os espaços na iminência do desaparecimento operam mínimas resistências, suscitadas e tolhidas pelo próprio processo nos quais se inserem. E o que o cinema de Jia Zhang-ke faz, por sua vez, é propriamente tornar produtivos esses espaços quase despreendidos de coordenadas pondo-os em relação com as vidas ali instaladas, em toda sua precariedade. A fábrica em demolição de 24 City [2008], o passado-presente de Memórias de Xangai [2010], a cidade submersa em Dong [2006], as reconfigurações da indústria têxtil de Inútil [2007]: nos filmes de Jia Zhang-ke percebemos um gesto recorrente de revelar uma escritura que se faz com esse excesso de real (COMOLLI, 2008) e seus escapes, fragmentos, estilhaços. Uma vigília do passado – jamais acessado – e um vislumbre do presente – em plena transformação. Se os objetos carregam consigo uma potência de mutabilidade, esta é incorporada à ação de conectar e desconectar, de permitir ligações inviáveis, de determinar encontros e afastamentos simultâneos, de estar sem durar e de resistir enquanto se desfaz. Diferentes postos em movimento. O real, as imagens, os lugares, os afetos: tudo é convocado para tomar posição (DIDI-HUBERMAN, 2008).

Tomada de posição potente em Inútil, através da realização movimentos que se conectam e colidem, reverberando questões relativas à configuração do espaço, à orientação do poder e à representação fílmica e sua constitutibilidade. No primeiro bloco de imagens, o filme se detém na produção de uma fábrica têxtil e suas linhas de montagem. Espaço de confinamento onde se opera a disciplina, regime de visibilidade que define os lugares no interior de uma configuração estética, investe no gesto autômato e na apropriação do tempo (FOUCAULT, 1987). Da tecelagem seriada, o filme parte então para o processo de composição de roupas da estilista Ma Ke: a organicidade da vida incorporada ao tecido: enterrar as roupas como gesto de resistência e enfrentamento à impessoalidade dos produtos vendidos nas redes de departamento. Aqui, a potência da vida, em seu sentido biológico, está invocada – a forma acabada do biopoder (PELBART, 2003). Da Paris Fashion Week, o filme realiza um sutil movimento, abandonando a estilista e desembocando num pequeno vilarejo onde a costura artesanal cedeu seu lugar a novas atividades.

Finalmente, nos cabe refletir sobre a potência de uma política da arte duplamente convocada na ação da estilista e nas operações de montagem de Inútil. Assim, acompanhamos a narrativa como forma de compreender a atuação do poder e suas variações no universo da moda: produção material e imaterial, potência criadora de estilo e vida, ato de resistência e forma cínica de ser.

Bibliografia

COMOLLI, J-L. Ver e poder: a inocência perdida – cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: UFMG, 2008.

DELEUZE, G. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: Conversações. São Paulo, Editora 34, 1992.

DIDI-HUBERMAN, G. Cuando las imágenes toman posición. Madrid: Antonio Machado Libros, 2008.

FOUCAULT. M. Vigiar e Punir: o nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

LAZZARATO, M. As revoluções do capitalismo.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

MIGLIORIN, C. Igualdade Dissensual: Democracia e Biopolítica no Documentário Contemporâneo. Revista Cinética, 2008. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/cep/cezar_migliorin.htm

PELBART, P. P. Vida Capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003.

RANCIÈRE, J. Aesthetic Separation, Aesthetic Community, In: The Emancipated Spectator.New York: Verso, 2009. p. 51-82

______. A partilha do sensível. São Paulo: Ed. 34, 2009.

SAFATLE, V. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo, 2008