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  Título
O espaço sonoro compacto: reprodução multicanal e novos modelos perceptivos
Autor
José Cláudio Siqueira Castanheira
Resumo Expandido
A ampliação do espaço sonoro do filme através da multiplicação de canais de reprodução em salas de exibição serviu, nas palavras de Birger Langkjær (1997), para incutir no espectador uma “sobrecarga perceptual e emotiva”. Muito embora seja ponto pacífico a contribuição de tecnologias como o Dolby, nos anos 70 e, mais recentemente, das diversas formas de som digital, para uma melhor definição em sons dos mais sutis aos mais intensos, outras consequências podem ser depreendidas dessas novas circunstâncias tecnológicas. Encontramos em determinados modelos de cinema uma necessidade de sobreposição e combinação de um número cada vez maior de camadas sonoras na experiência fílmica. A quantidade de informações fornecidas pelo filme coloca em xeque nossas capacidades perceptivas. Para Mark Kerins (2011), os atuais sistemas de som digital surround reduziriam a distância percebida entre o objeto e sua representação, reforçando, assim, a ideia de representação como percepção proposta por Baudry (1986). Este trabalho propõe uma confrontação entre a proposta de um “espaço sonoro compacto” e pressupostos de cunho psicanalítico como o de uma regressão a um estágio primitivo e da suspensão da descrença em mecanismos imersivos.

Mesmo que tenhamos consciência de que o filme se trata de uma situação imaginada, a impossibilidade de discriminação dos múltiplos elementos presentes em espaços sonoros ampliados favoreceria a sensação de realidade. O aspecto perceptual da experiência é deixado em aberto, impossibilitando uma síntese satisfatória de todas as informações. O espaço é constantemente varrido pelos sentidos e é reconstruído sistemática e continuamente à medida que novos detalhes acústicos se apresentam. O mapeamento desse território é incerto. A relação entre uma imagem bidimensional (simulando um espaço tridimensional) e a real tridimensionalidade desse novo espaço sonoro são peças-chave para compreendermos os efeitos de identificação do espectador.

Langkjær identifica uma assimetria entre as ideias de ponto de vista (POV) e ponto de audição (POA). Enquanto é fácil assimilarmos o ponto de vista como uma relação entre a câmera e o objeto, o mesmo não se dá com o ponto de audição. Quando tentamos transpor esse tipo de referências para o universo sonoro a situação se complica. A natureza omnidirecional do som não permite que se delimite um local específico de onde o espectador ou algum personagem esteja ouvindo. Autores como Michel Chion e Rick Altman compartilham da opinião de que o ponto de audição resulta de uma combinação de som e imagem, constituindo uma “interpelação perfeita, pois nos insere na narrativa justamente na interseção de dois espaços que a imagem, sozinha, seria incapaz de ligar, dando-nos, então, a sensação de controlarmos a relação entre esses espaços.” (ALTMAN, 1992, p. 60-61)

Para Langkjær, o que ocorre é uma relação perceptual entre os dois, em que o ponto de vista referencia-se por uma tridimensionalidade da visão e o ponto de audição (em filmes monofônicos) apenas pela distância entre objeto e microfone. O som monofônico funciona como se fosse um elemento uno, proveniente de todas as partes e, consequentemente, anulando as diferenças entre essas partes. O espaço reduz-se a uma única dimensão sonora e acaba, dessa forma, inevitavelmente atrelado à imagem, maior responsável pela impressão de tridimensionalidade.

A tarefa de criar um espaço sonoro estável, porém, em uma nova relação produzida entre o som distribuído em vários canais e a imagem é mais complicada. Cria-se um modelo espacial de um-para-um, ou algo próximo disso. O som surround pode ser perturbador, questionando uma diegese prévia mais rigidamente estruturada. O trabalho perceptivo para incorporar diferentes distâncias e localizações no espaço é maior com a reprodução multicanal, produzindo efeitos de estranhamento e rupturas entre o som e a imagem.

Bibliografia

ALTMAN, Rick (Ed.). Sound theory/sound practice. New York: Routledge, 1992.



BAUDRY, Jean-Louis. The apparatus: metapsychological approaches to the impression of reality in the cinema. In: ROSEN, Philip (Ed.). Narrative, apparatus, ideology. New York: Columbia University Press, 1986.



CHION, Michel. Film, a sound art. New York: Columbia University Press, 2009.



DOANE, Mary Ann. Ideology and the practice of sound editing. In: WEIS, Elisabeth (Ed.); BELTON, John (Ed.). Film sound: theory and practice. New York: Columbia University Press, 1985.



KERINS, Mark. Beyond Dolby (stereo): Cinema in the digital sound age. Bloomington: Indiana University Press, 2011.



LANGKÆR, Birger. Spatial perception and technologies of cinema sound. In: Convergence: the international journal of research into new media technologies, 3, 1997, p. 92-107. Disponível em: