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  Título
A vida como ela é: Nelson Rodrigues no palimpsesto televisivo
Autor
Stefanie Hesse Alves
Resumo Expandido
Este trabalho analisa os quarenta episódios lançados em DVD, da série A Vida Como Ela É, dirigida por Daniel Filho, adaptada por Euclydes Marinho, a partir da obra literária homônima de Nelson Rodrigues, exibida pelo programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão em 1996. A vida como ela é..., como obra literária, nasceu de uma coletânea de cem contos publicados na coluna de mesmo nome pelo autor Nelson Rodrigues, no jornal Última Hora, do Rio de Janeiro, entre os anos de 1951 e 1961. Os textos de A vida como ela é... chamam a atenção por sua temática popularesca e polêmica, de grande apelo sexual, em que Nelson Rodrigues, com seu quê de crueldade, despe o pudor da sociedade e sacia a fome de perversão de seus leitores. Sua adaptação para a televisão por Daniel Filho, transforma o texto em sons e imagens, e nos inquire questionar o resultado dessa passagem, sobretudo, em relação aos processos de equivalência textual no que tange às questões mais provocativas levantadas pelo autor do texto de partida. Após perscrutar a obra em seus constituintes internos, julgamos necessário estudar o lugar dessa produção no quadro geral da programação da Rede Globo de Televisão. Trata-se de discutir de que maneira esse universo complexo foi traduzido em cores, formas, figurinos, maquiagens e enquadramentos. De que maneiras os corpos de mulheres e de homens foram tratados a fim de debater questões sobre seus comportamentos num tempo historicamente distante da exibição da série. Como música, vozes e efeitos sonoros ganham força dramática, e qual a sua influência na compreensão do sentido da obra. Destaca-se, ainda, as particularidades do formato seriado. A duração das obras e o constante processo de adaptação a que são submetidas no decorrer de sua produção, em virtude da audiência, contribuem para que seja difícil traçar perfis e sistematizar a produção ficcional na TV. Dada essa singularidade dos produtos televisivos, pode-se abrir mão de esquemas rígidos de abordagem que privilegiam os formatos e demandas específicas. Há um quadro geral de mobilidade que é característico do hibridismo televisivo, onde interessa o estudo do sentido da obra a partir de um olhar interno de suas características e da tensão com o quadro institucional que a permite existir. No corpus em questão, o formato seriado adquire aspecto singular pela economia da duração, sua inserção num programa de variedades e o processo de adaptação do universo rodrigueano no horário nobre da televisão brasileira. Tendo em vista o destaque que o texto e seu autor, Nelson Rodrigues, possuem no contexto da literatura nacional, e a importância de Daniel Filho no quadro geral do padrão ficcional televisivo, a série A Vida Como Ela É reúne dois dos principais nomes formadores da cultura contemporânea, e um estudo aprofundado dessa obra contribui nas discussões e teorizações sobre a produção ficcional na televisão brasileira, que merece atenção especial, visto sua repercussão mundial desde os primórdios de sua realização. Observamos criticamente a maneira como se processa o movimento de transformação de uma obra literária, de um autor “provocativo” para figurar, primeiramente, no quadro do conteúdo da revista de variedades da família brasileira, o Fantástico. A partir do estudo das estruturas internas delineamos um quadro mais amplo de análise, que compreende os elementos narrativos e discursivos, o quadro geral dos processos de encenação que são ativados para dar corpo ao texto rodrigueano, o tratamento sonoro ativado e sua relação com o conteúdo narrativo e, finalmente, a voz que emana dessas articulações, em que a bisbilhotice sobre as relações privadas é ativada para lidar com as relações secretas de homens e mulheres.
Bibliografia

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