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  Título
Transbordamento das Fronteiras em Tráfico e The Fourth World War
Autor
Anelise Reich Corseuil
Resumo Expandido
Em documentários e filmes ficcionais recentes observa-se a ênfase nos processos de hibridização cultural, a transposição de fronteiras geográficas e culturais e a conseqüente aproximação de audiências de primeiro e terceiro mundo, seja por questões temáticas, estéticas e/ou de produção. Neste contexto este trabalho analisa dois filmes recentes, The Fourth World War (2004) e Tráfico (2000), cujas narrativas atravessam as fronteiras do nacional para problematizar a fluidez do capital e a confluência de identidades culturais em diferentes cenários geográficos.

Documentários e filmes ficcionais recentes apresentam perspectivas que vão além das fronteiras nacionais na luta contra a economia global, apontando a complexidade, confluência e apagamento de identidades culturais e nacionais. No caso específico do filme The Fourth World War tem-se uma narrativa que aproxima conflitos regionais e nacionalistas de países tão díspares como México, Argentina e Coréia, através de uma narrativa transcultural, que ao mesmo tempo afirma e resiste aos discursos neoliberais. Em Tráfico ocorre também uma transposição de fronteiras do nacional, autorizada a partir da fluidez do capital do narcotráfico, e que reforça o apagamento de identidades culturais diferenciadas. Estes filmes não apenas apresentam um tom denunciatório de políticas neoliberais, mas também uma tentativa estética e retórica de aproximar audiências do primeiro-mundo dos problemas econômicos, históricos e políticos de países do chamado terceiro mundo. Indo além de questões nacionais, os filmes estabelecem um problemático elo de ligação econômico, histórico, social e cultural entre comunidades globalizadas. Conforme indica Robert Stam “se o discurso nacionalista dos anos 60 construiu barreiras separando primeiro e terceiro mundo, opressor e oprimido, discursos pós-nacionalistas substituem estes binarismos com um espectro mais sutil de diferenças em que em um novo regime global primeiro e terceiro mundos estão imbricados” (Stam, p. 32).

Os filmes em questão oferecem uma rica leitura para os conflitos geopolíticos latino-americanos uma vez que política, conflito de classes e a relação entre o estado e a mídia são vistos nos filmes no contexto de uma perspectiva transnacional, nas interrelações entre os hemisférios norte e sul e apresentando-se como um espaço viável para uma crítica das suas relações hegemônicas. Ao mesmo tempo em que os filmes problematizam as relações de poder ao aproximar realidades culturais tão diferenciadas, suas construções narrativas neutralizam as diferenças econômicas, culturais e geográficas existentes entre os diversos territórios e seus sujeitos que se intercruzam. Neste contexto, este trabalho propõe-se a analisar os discursos conflitantes subjacentes aos filmes, quais sejam, seus discursos denunciatórios do neoliberalismo e o apagamento de narrativas nacionalistas através da própria construção estética e narrativa dos filmes em questão.

Bibliografia

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Naficid, Hamid. “Between Rocks and Hard Places: The Intertistial Mode of Production in Exilic Cinema”. In Home, Exile, Homeland: Film Media, and the Politics of Place. Hamid Naficy Org. AFI Film Readers. New York: Routledge, 1999.



Saldaña-Portillo, Maria Josefina. The revolutionary imagination in the Americas and the age of development. Durham and London: Duke University press, 2003.



Stam, Robert. “Beyond Third Cinema: The Aesthetics of Hybridity”. In Rethinking Third Cinema. Ed. Anthony R. Guneratne. London: Routledge, 2003. pp.31-48.