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  Título
Cinema da retomada: mundialização de uma comunidade híbrida imaginada
Autor
Eduardo Dias Fonseca
Resumo Expandido
Appadurai no seu livro Modernity at large (1996) enuncia dois pilares importantes para pensar a globalização: a partir da mídia eletrônica massiva e das diásporas. Esses pilares estão ancorados num processo que o autor chama de “trabalho da imaginação” que agenciaria toda a articulação entre os temas propostos. Através do constante uso das novas mídias eletrônicas, estaríamos aumentando o nosso “conhecimento” de outros lugares, mas não só como uma experiência real, sim como uma experiência que está baseada na imaginação. Segundo o autor, o aparato midiático “sempre carrega esse senso de distância entre o espectador e o evento, mesmo assim, essas mídias abrigam a transformação do discurso do dia a dia” (Appadurai, 1996, p.3). É como se houvesse a naturalização das distâncias, mas as implicações no dia a dia estariam agenciando uma proximidade de regiões muito distantes do globo. Assim, aumentaria a sensação de cercania e de apropriação de eventos não próximos à territorialidade e cultura dos sujeitos imbricados. Utilizando o dispositivo midiático como foco Néstor García Canclini (2008), traz para a realidade latino-americana um enunciado tangencial ao que propõe Appadurai (1996). Além do fato de identificar a constante urbanização nos territórios latino-americanos Canclini, ressalta o importante papel das mídias eletrônicas, em especial as mídias audiovisuais, nas narrativas do nacional, no agenciamento de temporalidades e no embate entre o público e o privado. Estaríamos diante de uma concepção imaginária, formada pelos discursos das mídias eletrônicas, do que seria, por exemplo, a nação e o nacionalismo. O imaginário seria alimentado no processo de sua construção por dispositivos da cultura massiva eletrônica como telefones, computadores, cinema, televisão, revistas e jornais, gerando narrativas que agenciam e negociam diásporas (Appadurai, 1996). Nesse sentido é importante notar a presença do conceito de nação imaginada, pois através do dito aparato discursivo de construção do nacionalismo, identificamos propostas imaginárias do que é nação. A articulação de Appadurai (1996) e Canclini (2008) entra em contacto com o que Benedict Anderson (1983) define como nação. O cinema, como parte do aparato das mídias eletrônicas, seria um dispositivo ativo na construção da nação imaginada, e operando ativamente para a conformação de discursos. As mídias eletrônicas, destacando a presença do cinema, entram no jogo operando ativamente para a construção do discurso do nacional e, consequentemente, da globalização. Podemos tomar como exemplo das formas dicotômicas apresentadas ao longo do devir cultural brasileiro, reveladas no campo do binarismo proposto pelo local/ apelo global, moderno/tradicional, desenvolvimento/atraso, problematizadas com bastante frequência no nosso campo cultural. A articulação feita por Silviano Santiago (2004a) parte da literatura, e nos possibilita visualizar períodos pontuais onde a busca do mundo, como um dos telos da construção artística, é tema recorrente em autores. Não somente a literatura busca esse mundo, como também, por citar um exemplo, as artes plásticas dos modernistas dos anos 1920 também estão carregadas do apelo do mundo em suas obras, claramente associando o devir cultural brasileiro com o devir cultural mundial. No cinema a proposta do Cinema Novo também tensiona as dicotomias revelando um Brasil de uma maneira mais local, porém universalizada, usando a linguagem cinematográfica e os apelos à intertextualidade com correntes cinematográficas de outras partes do mundo, validando assim o seu caráter global. Como poderíamos fazer aproximações do cinema da retomada no âmbito da mundialização? Neste trabalho articularemos os temas apresentados com o cinema da retomada, usando textos fílmicos como: Como nascem os anjos (Murilo Salles, 1996) Terra estrangeira (Walter Salles e Daniela Thomas, 1995); Cronicamente Inviável (Sérgio Bianchi, 1999) e Baile Perfumado ( Paulo Caldas e Lirio Ferreira, 1997).
Bibliografia

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a expansão do nacionalismo. Lisboa: Edições 70, 1983.APPADURAI, Arjun. Modernity at large: cultural dimensions of globalization. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996.CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas: Estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp, 4ª ed. 4ª reimpr. 2008..FRANÇA, Andréa. Terras e fronteiras no cinema político contemporâneo. Rio de Janeiro: 7 letras, 2003.FRANÇA, Andréa;LOPES, Denilson (Orgs). Cinema, globalização e interculturalidade. Chapecó: Argos, 2010.HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2006a.ORTIZ, Renato. Mundialización: saberes y creencias. Barcelona: Gedisa, 2005.SANTIAGO, Silviano. O cosmopolitismo do pobre Belo Horizonte: UFMG, 2004.STAM, Robert e Shohat, Ella Unthinking eurocentrism. New York: Routledge, 1994.WARNIER, Jean-Pierre. La mundialización de la cultura. Quito: Ediciones ABYA-YALA, 2001.