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  Título
Lugares do afeto: a Amazônia imaginada
Autor
Gustavo Soranz
Resumo Expandido
Autores como Wagner(2008) e Pinto(2006) tem se dedicado a refletir sobre o pensamento social na Amazônia e a fazer uma análise crítica das interpretações da Amazônia que foram cristalizadas à partir de um conjunto de ideias e percepções historicamente construídas, consolidadas em esquemas interpretativos difundidos nos textos dos naturalistas viajantes e seus explicadores. Essas interpretações cristalizadas em dualismos (inferno x paraíso), biologismos (pulmão do mundo) e geografismos (eldorado) (WAGNER, 2008) se estendem para o discurso cinematográfico, que contribuiu para perpetuar essas análises em sua apresentação da Amazônia em diferentes filmes. Essas noções generalizadas sobre a região amazônica tendem a considerá-la sem história, sem permanência humana, imutável, sobre a qual predomina o conhecimento pré-concebido, concepção bastante distante da sua realidade empírica. São informações fragmentadas, descontínuas, tratadas de maneira sensacionalista em busca do insólito.

Com a expansão da produção de filmes na Amazônia na última década, particularmente documentários, podemos notar a emergência de outros discursos que acabam repercutindo essa revisão dos esquemas interpretativos presentes no pensamento social sobre a Amazônia. Tais filmes apresentam certa revisão da historiografia clássica sobre a região, dedicando-se a mostrar as histórias comuns e experiência dos seus sujeitos sociais, em oposição às análises cristalizadas. Podemos encontrar uma série de temas que apresentam uma Amazônia profunda que antes não se via em documentários realizados na região. Distante dos temas clássicos relacionados à Amazônia até décadas passadas, e exemplo dos grandes projetos de intervenção para a região, como a Transamazônica, cujos equívocos estão denunciados em vários filmes das décadas de 1970 e 1980, encontramos em diversos documentários recentes os modos de vida da diversa população amazônica. A representação do mundo histórico está inextricavelmente ligada a uma auto-inscrição do sujeito na realidade, que acaba por mudar a representação dessa realidade.(RENOV, 2004). Atravessados pela subjetividade desses sujeitos, tais filmes inventam, imaginam outra Amazônia, onde a mitologia clássica passa a ser revista, dando margem a discursos permeados de reflexividade, que criam discursos originais, que desmontam clichês e subvertem lugares comuns sobre a região.

Para exemplificar a proposta, analisaremos os documentários “Invisíveis prazeres cotidianos” (Jorane Castro, 2004) e “Jovens:Tefé” (Fernando Segtowick, 2008), diretores que vivem na Amazônia. No primeiro, a diretora apresenta a cidade de Belém, no Pará, a partir dos olhares de 5 blogueiros. Por meio da leitura de posts na internet, os personagens do documentário vão entrelaçando sua experiência social e sua subjetividade acerca da vida nessa cidade. Os diversos aspectos da vida na cidade de Belém são abordados, como a noção de isolamento geográfico e cultural, a relação com a natureza e os fenômenos naturais. Os comentários e as construções discursivas fogem ao lugar comum dos discursos sobre Amazônia. A noção de isolamento é questionada pela própria proposta do documentário, que entrevista blogueiros, completamente ligados ao que podemos chamar de sociedade em rede. No segundo filme, os entrevistados são jovens moradores da cidade de Tefé, no interior do Amazonas. Ali também, certos clichês sobre a região passam a ser revistos e os anseios e desejos dos jovens orientam o discurso. Dialogando com a cultura popular contemporânea, os jovens praticam capoeira, tem banda de rock e não pensam em sair da cidade em direção à capital, Manaus. Distantes das categorias sociais típicas da Amazônia, como ribeirinhos ou pescadores, o que temos é uma geração de jovens que dialoga com outras culturas, outras subjetividades. Nos discursos notamos os afetos e desejos de uma juventude que se expressa nos documentários buscando seu lugar no mundo, ao passo que ajudam a reinventar a ideia de Amazônia
Bibliografia

ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de. Antropologia dos archivos da Amazônia. Rio de Janeiro: Casa 8/Fundação Universidade do Amazonas, 2008.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder – A inocência perdida: cinema, televisão, ficção e documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

PINTO, Renan Freitas. Viagem das ideias. Manaus: Editora Valer, 2006.

RENOV. Michael. The subject of documentary. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004.

SANTOS, Boaventura de Souza. A gramática do tempo: por uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.