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  Título
O corpo e as políticas do cotidiano nos filmes de Fernando Belens
Autor
Marise Berta de Souza
Resumo Expandido
Entender o cinema como uma linguagem complexa com laços intrincados entre a poética do criador cinematográfico e os seus processos de produção, torna possível traçar princípios que admitem uma marca pessoal na realização cinematográfica que permite que se coloque a discussão para além das suas tradicionais dicotomias entre arte e indústria, localismo e universalismo, e possa se extrair do cinema sua essência enquanto linguagem poética, capaz de conjugar características de expressividade e comunicabilidade.

Essa premissa se faz necessária na abordagem pretendida por se tratar de trazer à cena um cineasta que opera na faixa da poesia de invenção, estabelecido em uma região geográfica marcada pela assimetria nas condições de produção. A opção pela análise das obras de Belens emerge tanto da busca, do enfrentamento às questões da margem, da demarcação de fronteiras e de territórios, como da constatação da diversidade e singularidade de sua conduta narrativa, evidenciadas na manipulação e inter-relação de seus conjuntos temáticos. Também completa o quadro dessa escolha a condição de centralidade que Fernando Belens ocupa no panorama do cinema baiano ao longo de quatro décadas em que transitou do engajamento convocado pela sua iniciação em super 8 à exploração e conhecimento do específico fílmico - ao exercitar o curtametragismo de ficção e documental - até chegar à experiência do longa-metragem, em 2009, ao realizar Pau Brasil, ocasião em que demonstra um posicionamento criativo e uma maturidade expressiva claramente baseados em investimentos narrativos marcados pela investigação e traquejo no manuseio da linguagem cinematográfica.

Para abordar os temas, as recorrências e o processo criativo desse cineasta, escolho, então, me posicionar a partir do ponto de vista do próprio artista, que afirma em diversos momentos de sua carreira que opera na tensão entre o corpo e as micropolíticas - uma atitude focada em preocupações contemporâneas específicas, como o gênero, a impunidade, a infância, a ecologia, a família, a exclusão, enfim tudo aquilo que espelha e reflete a sua atitude sociopolítica frente à vida. Este posicionamento me direciona no sentido de possibilitar a ampliação da minha compreensão sobre os seus filmes na tentativa de por em relevo a sua poética e traçar um percurso do processo criativo da mesma. Para isso, serão percorridos alguns caminhos de especulação teórica e determinados autores serão visitados. Inicialmente, recorrerei a alguns formuladores contemporâneos que descentraram o foco, quebraram o eixo e entenderam que há uma política do cotidiano, dando uma dimensão política a vários campos até então abafados ou considerados neutros, com repercussão no campo da estética, a exemplo de Anthony Giddens e Félix Guattari. Na tentativa de contornar, em última instância, a potência criativa do cineasta, traduzida nas suas formas de sentir e significar o mundo, prosseguirei à investigação problematizando determinadas noções implicadas no processo de construção fílmica de Fernando Belens, a exemplo dos conceitos de mise-en-scène, estilo e autoria, por meio dos quais o espectador adentra na diegese de seus filmes, sendo atingido por sua expressividade e interagindo com seus sentidos políticos, artísticos e culturais.

Bibliografia

AUMONT, Jacques.O cinema e a encenação. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2006.

BAECQUE, Antoine de (org.). La política dos autores – manifestos de una generación de cinéfilos. Barcelona: Buenos Aires: Paidós, 2003.

BECK, Urich; GIDDENS, Anthony; LASCH, Scott. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Unesp, 1997.

BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz: a encenação no cinema.Campinas, SP: Papirus, 2008.

CARRIÈRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

FOUCOULT, Michel. Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense, 2006.

FREIRE COSTA, Jurandir. O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.

GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos indisciplinares. São Paulo: Annablume, 2005.

GUATTARI, Félix. ROLNIK, Sueli. Cartografias do desejo. Petrópolis: Editora