/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Globo Filmes e o fluxo entre cinema e televisão no Brasil
Autor
Lia Bahia Cesário
Resumo Expandido
As abordagens baseadas na polarização entre cinema e televisão e cultura de elite e cultura popular parecem ter perdido potência explicativa diante das demandas do capitalismo contemporâneo e da tendência mundial da convergência transmidiática global. Há uma lógica de interdependência fundamental entre os meios que está na base do processo produtivo do audiovisual global.

No Brasil, existe uma reorganização importante que se origina em bases transnacionais, no entanto, as mudanças estão inseridas na formação sóciocultural do audiovisual brasileiro: um histórico de modernidade conservadora, de segregação distintiva entre os meios audiovisuais, ausência de estrutura industrial da atividade cinematográfica e hegemonia televisiva na indústria audiovisual brasileira. Assim, a cultura da convergência ganha roupagem singular no país, dialogando com continuidades e contradições históricas locais e demandas e tendências globais.

A convergência à brasileira se inicia e se evidencia na fricção do cinema com a televisão, meios já estruturados e presentes no imaginário coletivo do campo audiovisual brasileiro. Esta é a nossa possibilidade de convergência. Políticas públicas e privadas de aproximação e hibridação dos meios são desenhadas e executadas no audiovisual nacional contemporâneo.

No Brasil, a Globo Filmes é o principal expoente do processo contemporâneo de entrecruzamento entre os meios audiovisuais nacionais. A empresa é um sintoma do fenômeno mundial da globalização capitalista e uma estratégia de inserção global e fortalecimento do produto nacional no mercado transnacional. A Globo Filmes instituiu as primeiras políticas de deslocamento fronteiras entre cinema e televisão no Brasil ao criar uma metodologia própria para produção de produtos declaradamente híbridos e de trânsito com destaque midiático e de público e renda.

Projetos de coprodução como o filme Cidade de Deus (2002), Se eu fosse você (2006) e Se eu fosse você 2 (2009), Os normais e O Bem Amado são alguns exemplos de produtos da estratégia da Globo Filmes. Todo o processo de coprodução está associado à credibilidade e ao padrão de qualidade da TV Globo, “colaborando com o definitivo amadurecimento do setor e criando uma nova forma de fazer cinema no Brasil” (site Globo Filmes).

Junto à criação do departamento de cinema, a TV Globo intensificou a realização em coproduções com produtoras independentes com o objetivo de agregar “qualidade e prestígio” à sua grade de programação. A exibição da minissérie Som e Fúria (2009), uma coprodução da TV Globo com a produtora independente O2; e a minissérie Decamerão – A comédia do sexo (2009), coproduzida com a produtora independente Casa de Cinema de Porto Alegre, evidenciam a política de trânsito e a interdependência entre cinema e televisão implementada pela TV Globo nos anos 2000. Portanto, não é só o cinema que passa a depender e ter como referência a televisão nacional, há um trânsito bidirecional que vai ao encontro das demandas contemporâneas do capitalismo e da cultura de consumo.

As ações de conexão entre cinema e televisão do sistema Globo colocaram em pauta o desconforto e as potencialidades, e evidenciou os impasses de realizadores, críticos e pesquisadores - historicamente acostumados a lidar com o cinema e a televisão como formas de expressão audiovisual antagônicas – frente à tendência de adensamento das relações entre os meios de comunicação audiovisual no mundo e no país. A atuação da Globo Filmes suscitou debates importantes sobre a relação entre os meios e colocou a discussão na agenda estatal. Contudo, ainda não existe uma política pública sistêmica e orgânica de regulação e incentivo de integração entre cinema e televisão.

Os processos e os debates sobre a circulação entre cinema e televisão são recentes no país e ainda estão em fase de consolidação; contudo, já apontam uma reorganização que gera novas distorções e contradições, e suscita importantes discussões no campo audiovisual brasileiro.

Bibliografia

BUTCHER, Pedro. A dona da história. Dissertação de Mestrado defendida na UFRJ em 2006.

CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas híbridas: estrategias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

FIGUEIRÔA, Alexandre e FECHINE. Yvana (editores). Guel Arraes: um inventor no audiovisual brasileiro. Recife: CEPE, 2008.

FOLLAIN, Vera Lúcia. Narrativas em trânsito. IN: Revista Contracampo, Niterói, número 21, agosto/2010.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008.

LIPOVETSKY, Gilles e Serroy, Jean. A tela global: mídias cultuais e cinema na era hipermoderna. Porto Alegre: Sulina, 2009.

ORTIZ RAMOS, José Mário. Cinema, televisão e publicidade: Cinema popular de massa no Brasil nos anos 1970-1980. São Paulo: Annablume, 2004.

ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira. São Paulo: Brasiliense, 2001.

RIBEIRO, Ana Paula Goulart, SACRAMENTO, Igor e ROXO, Marco (org.). História da televisão no Brasil. São Paulo: Contexto, 2010.