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  Título
Antoine e Colette invadindo a sala
Autor
Márcia Regina Xavier da Silva
Resumo Expandido
Quero acrescentar, já que falo de Daney (que a “inventou” — a expressão passador — nesta acepção de agente de transmissão) que esta formosa palavra “passador” hoje utiliza-se de qualquer forma. O passador é alguém que dá algo de si mesmo, que acompanha na barca ou pela montanha aquele a quem deve fazer passar, que corre os mesmos riscos que aquele de quem se está provisoriamente a cargo. Hoje todo mundo se decreta “passador” para purificar ou enobrecer com pouco custo necessidades ou interesses nos que não há risco, nem travessia. André Bazin, Henri Angel, Jean Douchet, Serge Daney, Philippe Arnaud, Alain Philippon têm sido passadores, para citar só alguns. (Bergala, 2007, p. 57)







A partir do conceito da figura do adulto como “passador”, conceito cunhado por Serge Daney, que se refere ao adulto que acompanha a quem aprende, dando algo de si, correndo os mesmos riscos na aventura de viver (Bergala, 2006, p. 57), uma iniciativa poética, mas, ao mesmo tempo, comprometida e responsável, propõe-se a necessidade de levar esta questão para pesquisá-la junto aos co-protagonistas da experiência da passagem: em nosso caso, os adolescentes do século XXI, mais precisamente do 2º ano do Ensino Médio do Colégio de Aplicação da UFRJ.

Nesse sentido, foi escolhido o filme de Truffault, “L'amour à 20 ans: Antoine et Colette", pois havia o desejo de ouvir a voz deles acerca do que eles têm para dizer com respeito a sua juventude. Queremos ver através dos seus olhos. Nós seríamos apenas intérpretes, eles são os reais protagonistas na recepção e produção de uma cultura que lhes é própria.

Trata-se de um curta-metragem de 1962, cujo enredo poderia ser resumido assim: durante um concerto, Antoine ousa abordar Colette, a quem admira em segredo há muito tempo. É muito bem recebido pelos pais da moça, mas Colette deixa Antoine em companhia deles e sai com outro rapaz. Diante dessa história, jovens da contemporaneidade foram convocados, por intermédio de exibições dentro dos tempos regulares de aula, a sair do lugar usual de alunos para uma atmosfera de Paris, dos anos 50/60 e em preto e branco!

Além do conceito de “passador”, é colocada também em questão a hipótese de alteridade de proposta por Alain Bergala: o cinema entra na escola como um “outro”, que provoca a instituição escolar com o ato criativo, aproximar o artista do educador e dos alunos, insistindo que o cinema seja um “estrangeiro” no ambiente escolar para que daí se desmonte a hierarquia das relações de “saber” e seja possível “olhar”.

Entre cada um dos 24 quadros por segundo que nos dão a ilusão de continuidade que há na seqüência fílmica, há um lapso, um intervalo no mais das vezes invisível, porém fundamental; quando na sala de cinema, estamos no escuro a maior parte do tempo, e é essa porção escura que fica conosco, que fixa em nossa memória.

É justamente nesse ponto agudo da constituição fílmica, do mesmo ponto de que trata a psicanálise (a dor e a fruição do sujeito), que colocamos a educação para conversar, desaprendendo...

Bibliografia

AUMONT, J. As teorias dos cineastas. Campinas, São Paulo: Papirus, 2004.

________, J. & MARIE, M. Dicionário Teórico e Crítico de Cinema. São Paulo: Papirus, 2003.

BERGALA, Alain. La hipótesis del cine. Barcelona: Laerte, 2007.

RIVERA, Tânia. Cinema, Imagem e Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

TRUFFAUT, F. O prazer dos olhos. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

TIRARD, L. Grandes Diretores de Cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

XAVIER, I. O discurso cinematográfico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.