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  Título
A trilogia de Fontainhas de Pedro Costa: a forma artística de uma experiência de pobreza e humildade
Autor
Miguel Angel Lomillos Garcia
Resumo Expandido
A trilogia de Fontainhas de Pedro Costa: a forma artística de uma experiência de pobreza e humildade



O objetivo desta comunicação é a análise dos tres longas que compõem a trilogia de Fontainhas de Pedro Costa, assim chamada porque leva o nome do bairro favelado lisboeta em que o cineasta português se debruça retomando personagens e espaços confinados desse universo da pobreza: Ossos (1997), No quarto de Vanda (2000) e Juventude em marcha (2006). Embora os tres filmes configuram sem dúvida um núcleo temático coerente dado pela própria geografia humana e social do lugar, há um cambio radical a partir de Vanda: Costa muda do dispositivo profissional de 35mm ao video digital envolvendo uma equipe mínima que permite ao cineasta conviver com as pessoas ou personagens que retrata (eles mesmos moradores) durante os longos períodos de filmagem, e nessa paciente experiência o cineasta encontra “uma familia”, uma ética, um método de trabalho mais livre, um estilo e uma poética singulares. Há portanto um antes e um depois de Vanda e minha análise aborda principalmente os dois últimos filmes da trilogia realizados em video digital (o proprio cineasta diz que Vanda “é de alguma forma meu primeiro filme porque é a primeira vez que encontrei a possibilidade de uma familia”).

Podem-se ver portanto os tres filmes anteriores a Vanda como os passos necessários de um autor, dotado já desde o início de um agudo sentido de composição visual, à procura do seu estilo próprio: o estilizado O sangue (1989), filmado em preto e branco e nostálgico de um cinema clássico norte americano já perecido; Casa de lava (1994) a primeira aproximação ao mundo da pobreza onde combina os atores profissionais e não profissionais na ex-colônia de Cabo Verde e finalmente Ossos, que supõe uma maior intensificação de Costa no esvaziamento das estruturas dramáticas narrativas e na aproximação ao mundo dos pobres e imigrantes que descobre nos bairros da periferia de Lisboa de Fontainhas e Estrela d’África no seu retorno a Lisboa.

O cinema de Pedro Costa se caracteriza por um realismo rigoroso e cru em chave documental, a montagem elíptica, os planos fixos e longos, a total ausência de planos de reação, o uso forte de sons e ruidos que com frequência substituem à imagem e sugerem um mundo fora da tela; o forte e preciso tratamento materialista de objetos, corpos e espaços; o minucioso cuidado na composição, com um forte sentido em tableau (George de La Tour, Vermeer), o uso quase exclusivo de luz e música cuja fonte e real e diegética respectivamente.

Pedro Costa é talvez o máximo exponente no cinema contemporâneo que trabalha na fronteira entre a ficção e o documentário, com personagens inseridos no seu mundo real que mantêm seus próprios nomes e sua própria esfera de atuação cotidiana, mesmo que envolvidos em estratégias de ficção em função de uma narrativa que se modela em sintonia com a experiência que trazem à tona na frente da camera, no longo período de gestação do filme. Nesse processo se destacam dois personagens proeminentes: Vanda, cujo processo de autodestruição com o vício da droga é paralelo à demolição do bairro de Fontainhas pela prefeitura; o protagonista de Juventude em marcha, o imigrante caboverdeano Ventura, sem dúvida o personagem mais complexo da trilogia e cujos perfis ambiguos transitam entre o pasado e o presente, Cabo Verde e Portugal, o bairro demolido e o gélido novo conjunto habitacional, as conversas lacônicas e os encontros quase silenciosos com os amigos e familiares, enfim entre um mundo perdido (memória pessoal, histórica, etc ) e o estranhamento de um presente sem balizas.

Em definitivo, este trabalho tentará calibrar a significação do cinema poético, antinaturalista, austero de Pedro Costa tanto no conjunto do cinema português como do cinema transnacional. Este trabalho se inscreve dentro do meu projeto de pesquisa sobre o uso da tecnologia digital no cinema de autor.

Bibliografia

O cinema de Pedro Costa, Centro Cultural Banco de Brasil, 2010.

http://www.pedrocosta-heroi.blogspot.com/

João Bénard da Costa, Mateus Araújo Silva, Jacques Rancière, Jean-Luis Comolli, Fredric Jameson, André Bazin, Gilles Deleuze, Alain Bergala, Cyril Neyrat, Ricardo Matos Cabo, Luc Sante, Thom Andersen, Mark Peranson, Bernard Eisenschitz, etc, etc.