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  Título
Performatividades: a presença e o gesto na estética audiovisual
Autor
Cesar Baio
Resumo Expandido
Nas últimas décadas muitos criadores buscaram expandir a noção de cinema para além dos modelos estéticos que se tornaram hegemônicos ao longo do século XX, dando continuidade ao que logo de início Gene Youngblood (1970) nomeou Expanded Cinema. O dispositivo cinematográfico tem se tornado para estes artistas fonte de constantes rearticulações, subversões e expansões. Tão logo as tecnologias digitais passaram a permear mais incisivamente os meios de comunicação nas décadas de 1980 e 1990, este processo ganhou ainda mais força, elevando ao último grau os atravessamentos (Bellour, 1997) que vinham sendo realizados pelo vídeo. Com efeito, desde o surgimento dos primeiros computadores capazes de processar e gerar imagens, muitos artistas deixaram de lado os dispositivos industriais para se dedicarem à criação de seus próprios aparelhos (Flusser, 2008). Eles deixaram assim de atuar exclusivamente no campo formal da imagem, do som, da narrativa para intervir em um nível mais profundo, direcionando seus esforços para a criação de novos dispositivos técnicos. Câmeras, projetores, telas e espaços de projeção foram somados às tecnologias de sintetização, pós-processamento, distribuição e interfaceamento de imagens, passando a compor a base do repertório técnico para a criação de obras que se apresentam elas mesmas como dispositivos abertos à intervenção direta do público. Pensar na criação de obras-dispositivos significa, sobretudo, tomar o gesto artístico como a conformação da experiência proporcionada ao sujeito. Para estes artistas a tecnologia se tornou assim a base para uma linguagem poderosa que busca por novas estratégias de engajamento do sujeito na obra, por imagens que instiguem novas sensibilidades, por proporcionar experiências de imagens e sons diferentes daquelas da fotografia, do vídeo, do cinema. Compreender os vetores estéticos deste cenário heterogêneo e múltiplo é possivelmente um dos maiores desafios atuais para teóricos, críticos e artistas.

Dentre as vertentes que se estabelecem a partir da criação destas obras-dispositivos destaca-se uma que desloca radicalmente a relação entre público e imagem para a dimensão corporal. Estas obras estão fundadas no valor simbólico da presença e do gesto e se fazem a partir de um encontro sensível entre sujeito e imagem, colocando assim obra e público simultaneamente em uma condição performativa. A presente proposta se concentra justamente na apresentação e análise dessas obras, visando delimitar o que pode ser concebido como uma estética performativa. Para tanto, trabalhos de artistas como Gary Hill, Lucas Bambozzi, Demaris Risch e Rafael Lozano-Hemmer são analisados a partir das bases estéticas da performance (Goldberg ,Cohen, Lehmann, Fischer-Lichte). Esta analise é capaz de demonstrar que o tempo real da ação, o jogo simbólico corporal, o encontro entre público e obra acabam por colocar imagem e participante em uma condição performativa pautada no valor significante da presença (Gumbrecht, Zumthor) e do gesto (Flusser).
Bibliografia

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COHEN, Renato. Work in progress na cena contemporânea. São Paulo: Perspectiva, 1998.

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MANOVICH, Lev. The language of new media. Cambridge & London, MIT Press, 2001.

YOUNGBLOOD, Gene. Expended Cinema. New York: P. Dutton & Co, Inc, 1970.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, Leitura. São Paulo: CosacNaify, 2007.