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  Título
Filme, masala e Estado: Bollywood conseguirá cumprir suas promessas?
Autor
maria carolina vasconcelos oliveira
Resumo Expandido
A comunicação propõe uma reflexão sobre Bollywood, nome atribuído à aglomeração de empresas produtoras de filmes e de entretenimento relacionado a filmes estabelecida em Mumbai, antiga Bombay, e que muitas vezes é genericamente utilizado para se referir à indústria indiana de cinema no geral. O objetivo mais especifico é refletir, a partir da literatura disponível e do que é produzido pela mídia especializada, sobre a possibilidade de que essa indústria atinja uma competitividade em escala global, caminho que vem sendo indicado por interessados no tema.

O rápido e intenso crescimento de um pólo como Bollywood num país como a Índia, com indicadores sociais baixos (e indicadores econômicos também problemáticos durante muitas décadas, apesar do crescimento recente), tem atraído a atenção de pesquisadores e formuladores de políticas públicas nos últimos anos. O caso Bollywood é frequentemente utilizado para ilustrar o discurso em prol da economia da cultura, ou economia criativa, como opção viável para países em desenvolvimento. Um dos principais pontos ressaltados, nesse sentido, é o de que os filmes produtos dessa indústria têm alcançado cada vez mais o público de fora do país, o que poderia sugerir um caminho de internacionalização dessa indústria.

Propomos uma reflexão acerca de como a organização dessa indústria (em suas relações com o Estado e entre as firmas) influencia nos conteúdos estéticos produzidos, favorecendo uma produção de filmes que, no geral, segue uma “fórmula” específica (um gênero conhecido como masala), e na qual há pouco espaço para inovações em conteúdo. A aposta no estilo masala, que mistura elementos de diversos gêneros (o que explica o empréstimo do nome do tempero indiano para caracterizá-lo) e faz uso de elementos narrativos bastante recorrentes e relativamente previsíveis, reflete, em alguma medida, uma organização industrial em que empresa produtora assume praticamente sozinha os altos riscos de sua criação. Consiste, em alguma medida, numa resposta a um cenário de pouco apoio público¬ – o apoio à indústria de filmes de Mumbai foi proibido durante muito tempo na Índia, por conta de indícios de envolvimento da máfia local com essas atividades – e de pouca cooperação/ associação entre as empresas produtoras, o que dificulta processos de aprendizado e economias de escala e escopo. Em outras palavras, a “fórmula” estética dos filmes está relacionada a uma estratégia de minimização de riscos que faz sentido quando pensamos num cinema essencialmente “de mercado”, e em que os atores têm baixo grau de cooperação e associação.

Como buscamos argumentar, esse tipo de especificidade dificulta uma inserção dos filmes típicos de Bollywood em outros mercados, uma vez que a estética dos filmes é bastante específica e parece fazer menos sentido fora do contexto cultural indiano. Isso certamente está relacionado ao fato, constatado pela literatura, de que o público “estrangeiro” que consome os filmes bollywoodianos é composto basicamente pelos próprios indianos que estão fora do seu país (os chamados non resident indians).

O exercício de pensar Bollywood em seus aspectos organizacionais e econômicos, além de nos mostrar alguns aspectos que são essenciais para que essa indústria realmente cumpra sua promessa, possibilita também uma reflexão mais ampla sobre as relações entre forma e conteúdo nas indústrias culturais – ou seja, sobre como os arranjos sociais pelos quais essas indústrias operam são capazes de influenciar nos símbolos e conteúdos por elas produzidos.

Bibliografia

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