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  Título
Imagens na História: notas sobre filmes e narrativas historiográficas
Autor
Joao Pinto Furtado
Resumo Expandido
O atual estágio de desenvolvimento dos estudos e discussões histórico-historiográficas parece estar evidenciando cada vez mais a fluidez dos limites e fronteiras que até então conformavam a disciplina em relação às diferentes linguagens segundo as quais esta constrói e expressa seus conteúdos. Se há cem anos seria praticamente inviável afirmar o estatuto de verdade das narrativas históricas orais, mesmo que colhidas e registradas através das mais rigorosas metodologias cientificas, hoje a questão decididamente merece outro tratamento, menos radical com certeza. Segundo nosso entendimento, um movimento parecido tem ocorrido com os assim- chamados “filmes históricos”, integrantes de um gênero sempre controverso, que seriam melhor definidos, talvez, como “narrativas cinematográficas produzidas em torno de eventos históricos”. Tomando como referência os filmes “O resgate do Soldado Ryan” (“Saving Private Ryan”, Steven Spielberg, 1998) e “Cidadão Kane” (“Citzen Kane”, Orson Welles, 1939), procuraremos analisar como a rigorosa seleção de suportes visuais quanto ao primeiro filme, no caso a fotografia documental de Robert Capa, associada á construção de um vigoroso “set piece”, pode construir uma narrativa historiográfica de intensidade tal que, provavelmente, poucos textos escritos conseguirão igualar. No caso do segundo, em perspectiva comparada, pretendemos abordar a questão da memória, matéria prima da história, revisitada em três seqüências-chave para a compreensão do filme.

A exposição pretende, através da discussão de minúsculos trechos das obras, problematizar alguns aspectos teórico-metodológicos. Tentando estabelecer um diálogo entre a História do Tempo Presente e alguns personagens e narrativas do cinema, buscaremos interpelar o sentido e o alcance obtido pelo honesto e deliberado uso do anacronismo para tratar de temáticas históricas. Articulando a mensagem do texto original com suas apropriações e percepção pública - sempre tomada como testemunho indiciário do Tempo Presente - a proposta procura estabelecer uma visada crítica que se faz a partir do relativamente inusitado olhar do historiador sobre o cinema. A escolha das obras, notadamente assimétricas no que concerne às suas diferentes qualidades estéticas e alcance midiático, também se justifica a partir dos interesses de investigação. Tanto as diferentes estratégias narrativas adotadas, quanto mesmo as opções mais técnicas de filmagem, fotografia e enquadramento, revelam aspectos que nos parecem pertinentes à análise, daí se justificando a opção por consumir algum tempo da exposição na exibição de dois trechos, de 2 ou 3 minutos, da seqüência inicial no caso de "Private Ryan”, e da abertura de “Citizen Kane”.

Partimos do princípio de que quaisquer representações culturais são, ao mesmo tempo, indicadores e co-instituintes de processos mais amplos de agregação de interesses e criação de identidades. Representações culturais, e/ou obras de arte e da cultura, não seriam, portanto, apenas epifenômenos de alguma coisa abstrata (a “Sociedade”) que está fora ou na base delas. É por isso que, a nosso ver, as representações culturais são crescentemente consideradas como um objeto particularmente interessante no que diz respeito ao exame dos problemas da contemporaneidade. Supondo o receptor da mensagem como um agente co-participante do processo, buscaremos discutir os instrumentos disponíveis, numa dada sociedade, para formulação das representações e problemas da mesma. Tal enfoque amplia os horizontes da pesquisa histórica e sugere um diálogo interdisciplinar, ponto sobre o qual os principais fundadores dos “Annales”, em especial Febvre e Bloch, muito já se detiveram e prossegue sendo parte de uma agenda de pesquisa ainda persistente.

Bibliografia

APPLEBY, Joyce; HUNT, Lynn & JACOB, Margaret. Telling The Truth About History. New York: Norton, 1994. CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre Práticas e Representações. São Paulo: Difel, 1989. DARNTON, Robert. O Beijo de Lamourette: Midia, Cultura e Revolução. São Paulo: Companhia das letras, 1990. DE BAECQUE, Antoine. L´histoire-caméra. Paris: Gallimard, 2008. DELAGE. Christian & GUIGUENO, Vincent. L´historien et le film. Paris: Gallimard, 2004. SCHORSKE, Carl E. History and the Study of Culture. In: ROTH, Michael & COHEN, Ralph. (eds) History and ... Histories Within the Human Sciences . Charlotesville & London: Virginia UP, 1995. pp. 382-395.