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  Título
Nada humano é para sempre: imaginário e subjetividade em Fome de Viver
Autor
Diego Paleólogo
Resumo Expandido
O excesso de filmes sobre vampiros é sintoma de uma sociedade que se pensa a partir da diferença. Do monstruoso e emblemático Nosferatu ao vampiro politicamente correto da saga Crepúsculo, o cinema parece obcecado em produzir visibilidades da criatura noturna que se alimenta de sangue humano. O imaginário ocidental cria, exaustivamente, novos paradigmas para o vampiro. Suas representações sofrem alterações, muitas vezes respondendo aos anseios, medos e desejos da época de suas fabricações. O cinema re-atualiza o vampiro, investindo novos códigos, status e estéticas, construindo extenso acervo imagético de rupturas e continuidades. O filme Fome de Viver (The Hunger), dirigido por Tony Scott e lançado em 1983 (seleção oficial de Cannes), é um desses lugares especiais de ruptura e continuidade. A contração de características clássicas do vampiro, como caninos afiados e poderes sobrenaturais, desloca o monstro para outras instâncias. Em uma atmosfera onírica e asfixiante, na qual morte, desejo e erotismo emergem como esferas essências da experiência humana, três personagens buscam respostas em situações limítrofes. A narrativa é centrada em jogos de oposições que se cruzam: ciência e sobrenatural, possível e impossível, razão e delírio, por fim, vida e morte. De um lado, Catherine Deneuve como Miriam Blaylock, uma vampira secular que promete vida e juventude eterna aos seus escolhidos; do outro lado, Susan Sarandon como Sarah Roberts, médica e cientista especializada em processos de envelhecimento. No meio desses dois extremos, David Bowie como John, amante e companheiro de Miriam, que começa a envelhecer e deteriorar rapidamente. Para tentar entender e impedir esse processo, o casal procura a ajuda da cientista. Fome de Viver constitui um lugar de tensões e serve para pensarmos o cinema como ponto de convergência entre realidades e imaginários. As noções foucaultianas de biopoder, biopolítica, sexualidade e dispositivo, assim como os conceitos deleuzianos de agenciamento e sentido, constituem nossa moldura teórica para pensar diferenças, aproximações e afastamentos. Ainda, de acordo com Georges Bataille, a experiência erótica opera entre desejo e destruição; as personagens de Fome de Viver atuam entre esses dois pólos, realizando dobras sobre seus corpos e conduzindo o filme a um final trágico e inesperado. Outro ponto interessante é a utilização de vocabulário e práticas da medicina para tentar explicar o desconhecido. Em uma época na qual a AIDS ganha, lentamente, visibilidade, a ingestão do sangue adquire novo status: o vampiro contamina suas vítimas. Se a monstruosidade é contraída, outros pontos emergem como horror: o insaciável desejo (por sangue), a deterioração do corpo, e a eternidade condenada. Fome de Viver aborda, ainda, relações entre sexualidade, androgenia e contra-cultura, relevantes para se pensar a produção de monstruosidade na cultura contemporânea através do cinema. Fome de Viver se insere, dessa forma, em um campo de complexas relações de forças, poderes e saberes, constituindo interessante objeto de análise para elaborações sobre produção de corpos e sentidos em um imaginário que se pensa, obsessivamente, através da ficção e da monstruosidade, utilizando o cinema como superfície de inscrição.
Bibliografia

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DELEUZE, Gilles. A lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2007.

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_______. Crítica e Clínica. São Paulo: Ed. 34, 1997.

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FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

_______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

GIL, José. Metamorfoses do corpo. Lisboa: Relógio D’Água, 1997.

_______. Monstros. Lisboa: Relógio D’Água, 2006.

MIRANDA, José A. Bragança de. Corpo e imagem. Lisboa: Vega, 2008.

TUCHERMAN, Ieda. Breve história do corpo e de seus monstros. Lisboa: Vega, 1999.