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  Título
Influência da estética fílmica no teatro: uma análise da peça Adultério
Autor
Raquel Timponi Pereira Rodrigues
Coautor
Alessandra Maia
Resumo Expandido
Os filmes contemporâneos têm disseminado debates sobre a possível complexidade da narrativa e algumas tendências ganham força, apesar de não serem novidades na história do cinema. Entre essas intenções, destaca-se a estrutura do filme, ou seja, a preferência pela utilização de montagens narrativas não-lineares. André Setaro (2007) realiza um mapeamento teórico para a compreensão das várias formas de manifestação da narrativa fílmica atual. Entre elas, nota-se a predileção pelo uso da montagem de histórias alternadas, circulares, fragmentárias, usuais nos filmes de Almodóvar – Hable com Ella (2002), Volver (2006) –, latino americanos – 21 Gramas (2003), Amores Perros (2000), Biutiful (2010), de Alejandro Iñárritu – e em coprodução com parcerias ao redor do mundo – Slumdog Millionaire (2008). Ainda há que se destacar a opção por narrativas simultâneas – Ponto de Vista (2008) –, e de narrativas múltiplas, seja pela possibilidade de diferentes desfechos já disponibilizados na montagem da história – como nos clássicos Corra, Lola, Corra (1998), Smoking e No Smoking (1993), os dois últimos de Alain Resnais –, ou pela escolha de um final no DVD – entre os cinco fins possíveis de Adaptação (2002). Com o objetivo de evidenciar o diálogo entre a estética cinematográfica e as artes cênicas, esse artigo pretende analisar a influência dos recursos fílmicos não-lineares e das linguagens dos meios de comunicação na peça Adultério (2010), com direção de Daniel Herz, inspirada nas formas de produção do dramaturgo Luigi Pirandello. Em Adultério, a estratégia de abordar o tema pirandelliano, da fronteira tênue entre o real e o imaginário, facilita a apropriação dos recursos de montagem e linguagem do cinema para o teatro. No palco, os atores desconstroem continuamente a impressão de realidade cênica do espectador, fazem com que as histórias originem novas tramas dentro das primeiras, como num hipertexto que revela camadas de complexidade dos personagens, que se desenvolvem ao longo do espetáculo. Para realizar a equivalência filme/peça, o teatro utilizará recursos próprios de sua arte. Por exemplo, quando as cenas são simultâneas, elas podem ser indicadas tanto por dois pontos de foco de luz no palco ao mesmo tempo quanto utilizar-se da influência da montagem do cinema com a colocação de uma cena seguida da outra. Dependendo da entonação da fala do ator, tudo pode ser construído e desconstruído, ganhar um novo significado, pelas expressões do corpo, tom de voz e intensidade musical, que destacam ações diferentes, pois um mesmo diálogo, pela repetição com outra interpretação, ganha desfechos completamente distintos, sendo, assim, possível adentrar no psicológico dos personagens. O uso da linguagem de outros meios de comunicação é realizado através de uma transparência da representação física no palco: caricaturas pintadas nas roupas e onomatopeias dos quadrinhos, som do computador desligando – que atenta o espectador para a construção de outra identidade virtual do ator em cena, pelo uso de dois atores para representar um único personagem –, som da secretária eletrônica e iluminação que imita a projeção de luzes da televisão que passa um DVD, entre outros. Cabe ao espectador interpretar pelos diálogos e sinais sonoros e imagéticos a materialidade dos meios em determinada cena. Para a realização dessa análise, será realizado um trajeto histórico da influência do teatro na configuração do cinema e vice-versa, por meio da obra de Susan Sontag (2004). Quanto à abordagem da linguagem não-linear, serão abordados os autores da área da literatura como Borges, Barthes, Todorov, Genette, Bakhtin e Christian Metz, já especificamente no cinema, além dos contemporâneos que realizam um mapeamento da complexidade da estrutura fílmica, como Jan Simons (2008):forking path narratives (David Bordwell 2002), mind games (Thomas Elsaesser 2008) modular narratives (Alan Cameron, 2006), multiple-draft films (Edward Braningan, 2006), puzzle films (Bordwell, 2006).
Bibliografia

BARTHES, R. (org). Análise estrutural da narrativa. Trad. Maria Zélia Barbosa Pinto. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 2008. BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e estética: a teoria e o romance. São Paulo: UNESP, 1997. BORGES, Jorge Luís. A biblioteca de Babel; O Jardim das veredas que se bifurcam. In: Ficções (1944). Trad. Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Cia das Letras, 2007. GENNETE, G. Palimpsestes: La literature au second degree. Paris:1982. METZ, Christian. A significação do cinema. Trad. Jean Claude Bernardet. São Paulo: Perspectiva, 1972. NDALIANIS, Angela. Neo-Barroque Aesthetics and Contemporary Entertainment. Cambridge: The MIT Press, 2004. SIMONS, Jan. Complex Narratives. Publicado em: Revista Media en Cultuur. Edição New Review of Film and Telvision Studies. Vol 6, tema 2, ago. 2008. SONTAG, Susan. Sobre a fotografia. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. TODOROV, Tristan. As estruturas narrativas. São Paulo: Perspectivas S/A, 1970.