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  Título
Brilho eterno de uma mente sem lembranças e o imaginário cyberpunk
Autor
Rogerio Secomandi Mestriner
Resumo Expandido
Cyberpunk é tido como um dos muitos gêneros de ficção científica e têm seus enredos geralmente ambientados em “um futuro próximo”, focado em um mundo onde a alta tecnologia é acessível, em oposição a uma população miserável, vivendo sob um governo distópico que os controla e os repreende. Sua nomenclatura surge da junção dos termos “cibernético” e “punk”, utilizada pela primeira vez como título do conto de Bruce Bethke, e popularizada pelo jornalista Gardner Dozois, do Washington Post, ao discutir a ficção científica dos anos 1980 (AMARAL, 2005).



Na esfera da estética cinematográfica, o gênero cyberpunk apresenta como características o ritmo frenético, o excesso de informação, o decadentismo, a concentração de computadores, o domínio das grandes corporações, crimes nas ruas, personagens vestindo roupas de couro, usando próteses artificiais, dentre outras convenções. Há também a problemática filosófica geralmente apresentada em filmes desse gênero, a respeito da questão da identidade e da existência, a “dissolução do sujeito, questionando o conceito de humanidade a partir de uma oposição com o inumano” (idem, 2005, p.198).



Filmes como Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e Blade Runner lidam com metáforas computacionais para aludir ao funcionamento da memória, mostrando a compatibilidade entre os dispositivos informáticos e os circuitos mentais, ambos compartilhando a mesma lógica digital do software e do hardware. Diante deste panorama, o gênero cyberpunk se apresenta como uma reinterpretação da sociedade atual, uma exacerbação de suas características através da qual se pretende questioná-la e debatê-la, em obras claramente pertencentes à ficção científica, e outros, que se aproximam do gênero, sem necessariamente adotá-lo como um rótulo.



O tratamento visual irônico empregado pelo diretor Michel Gondry em Brilho Eterno, totalmente oposto ao universo referenciado, questiona o gênero cyberpunk, reafirmando que a ficção científica seria uma exacerbação das características da sociedade atual, com o intuito de debatê-las e questioná-las; uma representação exagerada de aspectos cotidianos. Brilho Eterno não apresenta ambientação noir, exposição de alta tecnologia ou governos distópicos. A trama do filme se passa em 2004, a tecnologia possível para o apagar de memórias está disponível no cotidiano dos personagens, com softwares que lembram o DOS, sistema operacional já ultrapassado na época de lançamento do filme.



Contribuindo para ironia, a direção de arte emprega computadores grandes, com monitores de tubo, impressoras matriciais, fitas cassete e pastas de papel, evitando objetos que indiquem tecnologia avançada, costumeiro de se encontrar em filmes cyberpunk. As locações e cenários do filme também o distanciam do gênero, ambientado em apartamentos suburbanos e dias claros de inverno, em decisões estéticas claras com a finalidade de se distanciar visualmente do cyberpunk, confrontando as convenções do gênero.



Trivializando a presença da tecnologia, Gondry nos faz considerar implicações filosóficas das possibilidades de interação entre homem e tecnologia, engendrando uma narrativa complexa, de nuances fantásticas, para responder angústias humanas ancestrais, como enfrentar a dor diante de episódios traumáticos de vida.



Apontando o cyberpunk como uma exacerbação das características da sociedade atual, tais avanços tecnológicos fazem da dramatização encenada em Brilho Eterno uma ilustração de um futuro próximo no qual de fato existe demanda para o uso de tal artifício, haja visto que existem desenvolvimentos científicos nessa direção.



Enquanto o progresso tecnológico não materializa essa possibilidade, até o momento, ficcional, fica a reflexão sobre uma sociedade dependente da tecnologia para sanar suas aflições e desejos, e sua vontade de embarcar em narrativas mais complexas, que exigem do espectador uma posição alerta para entender suas minúcias e agregar pistas ao longo do filme para entendimento maior da obra.
Bibliografia

AMARAL, Adriana. Visões perigosas: uma arque-genealogia do cyberpunk. Porto Alegre : Sulina, 2006.



BAKHTIN, Mikhail M. The Dialogic Imagination.Texas : Texas, 1987.



JOHNSON, Steven. Surpreendente! : a televisão e o videogame nos tornam mais inteligentes. Rio de Janeiro : Elsevier, 2005.



LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: 34, 1999.



MURRAY, Janet H. Hamlet no Holodeck : O Futuro Da Narrativa No Ciberespaço. São Paulo : UNESP , 2005.



REZENDE, Marcelo. Ciência do sonho: a imaginação sem fim do diretor Michel Gondry. São Paulo : Alameda, 2005.



STAM, R. Bakhtin: da teoria literária à cultura de massa. São Paulo : Editora Ática, 1992.



TADEU, Tomaz (Org.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte : Autêntica, 2009.