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  Título
Desassossego e a análise de um filme-processo
Autor
Iomana Rocha de Araújo Silva
Resumo Expandido
Desassossego, projeto concebido pelos cariocas Felipe Bragança e Marina Meliande, parte de um bilhete de uma menina de 16 anos, encontrado em um armário abandonado em um apartamento no Rio. Inspirado por este bilhete Felipe Bragança escreveu uma carta cujo conteúdo envolve perturbações juvenis, amor, utopia, explosões e apocalipse. Esta carta, por sua vez, foi enviada a quatorze cineastas provenientes de diversas regiões do Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Ceará). Esses cineastas deveriam ler e responder a tal carta com fragmentos visuais. Foram realizados dez fragmentos de filme em resposta a esta carta. Esses fragmentos foram enviados de volta aos idealizadores do projeto, para, a partir de então, serem costurados como uma carta-filme. Uma vez pronto, o filme deverá ser enviado a duas mil e dez pessoas no Brasil e no mundo. Essas pessoas são convidadas a responder com novos fragmentos que podem vir a fazer parte de um novo filme. Diante disso, observa-se Desassossego como um projeto in progress, o filme acabado não marca o fim do processo, este pretende ainda repercutir junto aos espectadores e estes poderão manifestar suas impressões e respostas sensíveis através de imagens. Objetiva-se analisar aqui tanto o processo que envolve Desassossego, como o próprio filme em si, observando algumas especificidades estéticas deste que pode ser considerado um filme-processo. Diante do projeto-Desassossego observa-se a tradução intersemiotica presente em seu processo de criação, que vai desde um bilhete, passando pela carta, pelos fragmentos fílmicos, chegando ao filme em si. Além disso, nota-se a forte presença do acaso nos diversos estágios do processo, seja o acaso como direcionador do projeto inicial de construção, seja nas marcas deixadas no filme concluído, seja no que ainda estar por vir, com as respostas dos espectadores. O acaso é utilizado pelos idealizadores do projeto como um elemento colaborativo, é manipulado e trabalhado por estes, se mostrando como um princípio direcionador de um projeto em construção. No caso do filme propriamente dito observa-se a heterogeneidade estética decorrente da múltipla autoria dos fragmentos que o compõem. É como se a partir de Desassossego se pudesse saborear um pouco da individualidade estética de cada um dos diretores-colaboradores do projeto (Helvécio Marins Jr, Clarissa Campolina, Carolina Durão, Andrea Capella, Ivo Lopes Araújo, Marco Dutra, Juliana Rojas, Marina Meliande, Caetano Gotardo, Raphael Mesquita, Leonardo Levis, Gustavo Bragança, Felipe Bragança, Karim Aïnouz), e assim experienciar fragmentos de algumas das diversas vertentes da produção atual do cinema independente/ experimental brasileiro, da qual o próprio Desassossego também faz parte. Trata-se de uma nova tendência de filmes cujo modus operandi e a própria linguagem se reconfiguram e se reinventam, e cuja produção é marcada por possibilidades criativas que se firmam como alternativa ao modelo de produção do audiovisual no Brasil, são propostas marcadas pela ousadia e pelo entusiasmo do fazer cinema. Dentro deste contexto, o cinema é visto fora de sua forma institucionalizada e rígida, não é mais preso às hierarquias e manuais, nem à regras de linguagem ou linhas estéticas, ele se abre à influências diversas, inclusive advindas de outras manifestações artísticas.



Bibliografia

DANTO, Arthur C. Após o fim da arte. São Paulo: EDUSP, 2006.

DUBOIS, Philippe. Movimentos improváveis: o efeito cinema na arte contemporânea. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2003.

MACIEL, Kátia (Org.). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009.

PLAZA, Júlio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 1987

SALLES, Cecília Almeida. Redes de criação: construção da obra de arte. São Paulo: Horizonte, 2006.

MIGLIORIN, Cezar. Por um cinema pós-industrial: Notas para um debate. In: Revista Cinética. Fevereiro de 2011. Disponível em: Acesso em 05/03/2011.