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  Título
Re-Cut Trailer – da carnavalização à reinvenção da autoria
Autor
Alexandre Silva Guerreiro
Resumo Expandido
O fenômeno da remixagem digital abre um poderoso espaço para reflexão. A partir da apropriação de imagens, essa prática tornou-se profundamente difundida, num panorama mais geral que abrange mash ups, re-cuts políticos etc. O presente trabalho propõe uma análise de um tipo particular de remixagem digital, a saber, o re-cut trailer, que se baseia no manuseio de som e imagem de um ou mais filmes com o intuito de promover uma inversão carnavalesca do objeto original.



O efeito pretendido pelo re-cut trailer é, a priori, o da inversão do gênero do longa-metragem ao que o re-cut se refere, ou mesmo do trailer que compôs a campanha de divulgação do filme. Uma vez re-cortada, a obra passa a ter o claro objetivo de entreter, através da parodização do objeto tomado como referência. Etimologicamente, paródia significa canto paralelo, o que pressupõe a idéia de vozes se sobrepondo, funcionando como “contracanto” em relação à outra voz que lhe é anterior. Os conceitos de sátira e paródia são elementos fundamentais na elaboração da cosmovisão carnavalesca. A paródia apresenta-se como essencialmente intertextual e polifônica, já que seu texto pressupõe textos anteriores que são por ela negados, relativizados, transformados. É a partir de uma inversão carnavalesca que o re-cut trailer cumpre seu papel fundamental: criar uma nova retórica com as imagens que foram apropriadas.



O retumbante sucesso de algumas obras originadas por recuts elevou seus diretores/editores ao lugar do autor. Não raramente, encontraremos referências dentro do re-cut trailer às obras realizadas pelos autores anteriormente. Assim, em 10 Things I Hate About Commandments, re-cut trailer do filme Os 10 Mandamentos, de Cecil B. DeMille, aparece a seguinte legenda: “dos mesmos criadores de Must Love Jaws”. A legenda faz menção a uma importante obra no universo do re-cut trailer realizada pelos mesmos autores.



O segundo re-cut trailer abordado neste estudo, a saber, Top Gun Recut, inverte o conteúdo sexual do filme original dirigido por Tony Scott, insinuando uma paixão entre Maverick (Tom Cruise) e Kasanzky (Val Kilmer), rivais no filme.Questões contemporâneas sobre autoria podem ser evocadas para se pensar uma engendragem complexa imposta pelas mídias digitais. Os re-cuts trailers embaralham, no melhor sentido, a fingição apregoada por François Jost. E se consideramos o filme como texto midiático, é preciso pensarmos até que ponto o re-cut trailer faz parte desse texto, já que é realizado no final do percurso, com a remodelagem do sentido do filme.



A inversão promovida pelo re-cut trailer não está apenas no efeito cômico de mudança de gênero. O próprio imperativo do trailer é colocado em xeque. O trailer ocupa um lugar de destaque na mecânica de divulgação de um filme, existindo em função deste. O re-cut trailer, ao contrário, é realizado posteriormente, e não divulga nada além de seu próprio conteúdo provocador do riso, apoiado na leitura intertextual que o espectador faz dele.



Mas até que ponto o re-cut trailer ultrapassa o universo do fandom? De que maneira a cosmovisão carnavalesca pode ser tomada como fundadora da ambiência em que nasce um re-cut trailer? Em que medida a reivindicada autoria dos realizadores dessa modalidade de remixagem digital se enquadra na tradição do pensamento sobre o que é “ser autor” de uma obra audiovisual? Nossa intenção principal é contribuir para aumentar a discussão dentro do panorama do re-cut trailer, em que a quantidade de textos e análises ainda é inversamente proporcional à avalanche de produções audiovisuais que tomam constantemente os sites especializados.

Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. O contexto de François Rabelais. São Paulo: HUCITEC, 1993.



BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa : Relógio D’Água, 1981.



BUSCOMBE, Edward. “Ideias de Autoria”. In: RAMOS, Fernão Pessoa (org.). Teoria Contemporânea do Cinema Vol 1, São Paulo: SENAC SP, 2005.



FAVERO, Leonor Lopes. “Paródia e Dialogismo”. In: BARROS, D.L.P. e FIORIN, J.L. (orgs.). Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: em torno de Bakhtin. São Paulo: EDUSP, 2003.



JENKINS, Henry. Fans, Bloggers, and Gamers: exploring participatory culture, Nova York: New York University Press, 2006.



JOST, François. “O autor como questão narratológica”. In: FABRIS, Mariarosaria et al. Estudos de Cinema e Audiovisual v.10, São Paulo: Socine, 2010.



WILLIAMS, Kathleen. Re-reading the history of the trailer. Disponível em www.canberra.edu.au/anzca2010/attachments/pdf/Re-reading-the-history-of-the-trailer.pdf Acesso 29/03/2011