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  Título
De mundos singulares: margem e afeto em dois filmes de Suzana Amaral
Autor
Fabio Allan Mendes Ramalho
Resumo Expandido
Tomando como base a figura de suas protagonistas, os dois primeiros longas-metragens da realizadora brasileira Suzana Amaral configuram um tipo de visiblidade que dá a ver modos de vida que se constituem em torno de tensões com as ordens relacionais – sociais, familiares e econômicas – que as circundam (FOUCAULT, 1996). Neste trabalho, busco mobilizar alguns elementos que, argumento, condensariam pontos de contato e de diálogo entre as obras, permitindo modos de aproximação entre ambas a fim de configurar um tipo de sensibilidade ou a especificidade de um olhar, dentro do repertório mais amplo da produção cinematográfica brasileira. Tais elementos seriam, de maneira resumida, a inadequação aos ideais românticos como marca de uma falência amorosa; a irrupção de gestos capazes de driblar, ainda que parcialmente, as lógicas de mercado e a circulação econômica; e, ainda, o trabalho de desmonte dos sentidos que permite questionar as convenções da cultura.



Em A hora da estrela (1985), a partir desta que seria uma notável rearticulação da figura da imigrante nordestina – arquétipo da marginalidade sem dúvida recorrente na cultura nacional – busco destacar elementos que resvalariam para um território de afetos que, se não está alheio a certas determinações sócio-econômicas nem delas pode prescindir, tampouco se esgota em um viés de leitura interessado apenas nas mais evidentes conotações de classe. A posição de Macabéa (Marcélia Cartaxo) se desdobra continuamente pela dimensão irredutível de suas errâncias, de sua subjetividade limítrofe, dos seus encontros malogrados. A relação com alguns ícones da cultura capitalista – o star system, os ideais de beleza, a cosmética –, assim como a reposição irônica que o filme faz desses signos, apontam para o encontro ambivalente com uma protagonista cuja condição, a mesma que a leva a ter medo das palavras, permite-lhe contudo constituir um universo próprio, permeado de desejos não-professados, aguçados pelas sensações e estímulos colhidos em suas solitárias derivas urbanas. Tal ambivalência, argumento, termina por adensar e complexificar a própria instância que a enuncia.



A ênfase no caráter conflituoso das relações que uma personagem estabelece com as diversas ordens com as quais negocia reaparece em Uma vida em segredo (2001). Aqui entra em cena Biela (Sabrina Greve), a solitária herdeira de um grande patrimônio, que, após a morte do pai, muda-se do campo para a cidade, onde passa a viver com familiares. O desconforto evidenciado de início pela composição rígida de poses e por uma certa saturação da imagem se agrava com o dado da decepção amorosa presente no episódio do noivado desfeito. A crise de pertencimento que atravessa esta presença feminina é demarcada pela impossibilidade de assimilar as regras de sociabilidade que pautam o meio pelo qual ela transita. Sua renúncia alcança um ponto crítico – um limiar (DELEUZE, 2002) – com a decisão de executar atividades estigmatizadas e, sobretudo, no gesto fortemente simbólico de subtrair o dinheiro dos esquemas de circulação que determinam o seu valor. Sua trajetória traça, assim, um caminho de recusa e recolhimento, corte gradativo dos laços e assunção de uma postura excêntrica.



Ambos os filmes, conforme busco argumentar, elegem assim como matéria de interesse estético a exploração de um senso de inadequação que se traduz na frágil e instável ancoragem visual dos corpos femininos em um espaço-tempo desconectado, descompassado. Em cada uma das táticas pelas quais se afirma a singularidade do lugar que tais existências ocupariam, não se encontra nunca totalmente abandonada a ideia de uma ambivalência ou negociação que, ademais, é cara à própria noção de margem. Seus desdobramentos conduzem a um exercício imaginativo pelo qual nos é permitido flagrar em tais existências os gestos capazes de tornar carregadas de afirmatividade vidas que, de outro modo, permaneceriam relegadas à constatação negativa de uma carência ou à denúncia de um déficit.
Bibliografia

BELLOUR, Raymond. Entre-imagens: foto, cinema, vídeo. Tradução Luciana A. Penna. Campinas, SP: Papirus, 1997.



DELEUZE, Gilles. Espinosa, filosofia prática. Tradução de Daniel Lins e Fabien Pascal Lins. São Paulo: Escuta, 2002.



_______________. A imagem-tempo. Tradução de Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2007.



FOUCAULT, Michel. “La vida de los hombres infames”. In: La vida de los hombres infames: ensayos sobre desviación y dominación. La PLata: Ed. Altamira, 1996, p.121-138.



RAMOS, Julio. Dispositivos del amor y la locura. Estudios: Revista de Investigaciones literarias y culturales. Caracas, Ano 6, n.11, jan-jun, pp.219-226, 1998.



RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Mônica Costa Netto. São Paulo: Editora 34, 2005.



TERADA, Rei. Feeling in theory: emotion after the “death of the subject”. Cambridge, Massachusetts and London, England: Harvard University Press, 2001.