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  Título
Performance e diversidade em Dzi Croquetes: estudos contemporâneos
Autor
Wilton Garcia
Resumo Expandido
O filme brasileiro Dzi Croquetes (2010, 110 minutos), de Tatiana Issa e Rafhael Alvarez evidencia traços da diversidade cultural/sexual. Sem dúvida, a película abre espaço para o debate crítico-conceitual sobre uma condição irreverente de performance (GARLSON, 2009), especialmente quando se pensa o atual contexto cinematográfico, cujo protagonismo tange diretamente o universo das minorias sexuais no país (GARCIA, 2004; TREVISAN, 2000). A narrativa cinematográfica, em formato documentário, elege estratégias discursivas de performance e travestismo para propor uma elaboração emblemática dos personagens recorrentes. Instaura-se a (re)invenção de cenas impactantes (de)marcadas por ambiguidade, deboche, humor, ironia e surpresa. E Parto deste pressuposto para pesquisar algumas estratégias discursivas no filme, cujos efeitos visuais e sonoros implementam-se pela sua própria qualidade singular. A mensagem do deleite, do prazer de se divertir e sorrir. Logo, experiência e subjetividade são categorias inscritas ao longo desta investigação, a partir de estudos contemporâneos do cinema em uma abordagem teórico-metodológica. Além disso, há a própria relação intertextual – paródica, mimética – do dispositivo cinema (como arte da representação cênica) que tenta equacionar essa expressão criativa, tendo como temática central o teatro. Eminentemente, as fronteiras que circundam essas áreas (teatro e cinema) somam a condição adaptativa de feixes de efeitos para falar do revolucionário grupo carioca Dzi Croquetes. “Tá boa santa?” é um jargão criado pela trupe. A indescritível criação do Dzi coloca em cheque a capacidade inventiva de provocar sorrisos da plateia quando se trata de discutir o exercício da sexualidade, diante de choques como o gênero (masculino x feminino). Além disso, a graça singular de cantores, dançarinos e músicos que compreendem expressões culturais brasileiras como o samba, a ginga e o molejo corporal – diante da arte do viver. Em um plano mais amplo, exibe-se a complexidade tenaz da arte dramática em que passagens do teatro brasileiro – marcado pelas dificuldades da censura política da ditadura – são traduzidas pelo viés simbiótico do cinema contemporâneo. Neste caso, observa-se o esforço entusiástico da aproximação de fatos verídicos, registrados por breves iniciativas de capturas audiovisuais (ora profissionais, ora mais caseiras) e a extensão do dado ficcional que enlaçam passagens inesquecíveis. Com isso, torna-se possível realizar a descrição de imagens traduzidas em afeto, desejo, erótica, sensualidade, sexo, entre outros argumentos. A tratativa cinemática, de modo poético, fala acerca da atmosfera homoerótica na película (FOSTER, 2003). Mais que isso, o rico imaginário da trupe se alterna com as escolhas cinemáticas que transversalizam diferentes fontes (contextualizadas por depoimentos, entrevistas). De fato, evoca-se um frenético tratamento para produzir novos/outros discursos – uma reinvenção criativa das representações cênicas. A sinopse indica: Em 1972, estreava o primeiro show dos Dzi Croquettes. Com homens usando roupas femininas, de forma a mostrar as pernas cabeludas e a barba, ele logo foi um sucesso. Apesar disto, foi também banido pelo Serviço Nacional de Teatro. Incorporando o espírito da contracultura reinante na época, os Dzi Croquettes usavam a irreverência para criticar a ditadura militar brasileira. Embora não haja problema direto sobre a orientação sexual dos personagens (gays e lésbicos), a homocultura ressalta ações afirmativas e visibilidade, ao iluminar uma situação peculiar junto ao retrato de um lugar não muito específico, encenado entre as moradias e o palco; (inter)mediado pelo conflitos pessoais da adaptação coletiva. Imagens emblemáticas tecem o emaranhado plástico de situações enfáticas, em que emergem no enredo as características eloquentes dos personagens. É um convite para o espectador refletir acerca das relações humanas.
Bibliografia

FOSTER, D. W. Queer issues in contemporary latin american cinema. Austin: University of Texas Press, 2003. GARCIA, W. Homoerotismo & imagem no Brasil. São Paulo: Nojosa edições/Fapesp, 2004. GARLSON, M. Performance: uma introdução crítica. Trad. Thais Flores Nogueira Diniz e Maria Antonieta Pereira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. STAM, R. Introdução à teoria do cinema. Trad. Fernando Mascarello. Campinas: Papirus, 2003. TREVISAN, J. S. Devassos no paraíso. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.