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  Título
Vagas notícias de um distante Vitaphone
Autor
Carlos Roberto de Souza
Resumo Expandido
Existem inúmeros estudos sobre o impacto de novas tecnologias das diferentes mídias sobre a cultura e a sociedade. Especula-se sobre o conceito de modernidade que essas tecnologias trouxeram em seu bojo e as reações socioculturais a elas. Mas como se daria a recepção, num país periférico como o Brasil, a simples informações forçosamente vagas a respeito de uma tecnologia que não se sabia como se manifestava? E, sobretudo, uma tecnologia que parecia representar uma ameaça de transformação a uma forma de entretenimento já consolidada, embora surgida há apenas três décadas. De 1926 ao início de 1929, a revista Cinearte publica notas e artigos sobre a onda de filmes sonorizados a que Hollywood parecia haver aderido. As notícias chegavam ao Rio de Janeiro de forma confusa e incerta. Era algo que ficaria ou uma moda passageira? Como funcionava esse tal de Vitaphone, lançado em agosto de 1926 com a exibição de Don Juan (Alan Crosland)? A comunicação tratará especificamente do período anterior à inauguração do cinema falado no Brasil – em São Paulo, em abril de 1929, com de The Patriot (Ernst Lubitsch) no cine Paramount; e no Rio de Janeiro, em junho do mesmo ano, com a exibição de Broadway melody (Harry Beaumont), no Palácio Teatro. A fonte primária será a revista Cinearte, com seus diversos redatores e correspondentes de Hollywood (inicialmente Arthur Coelho e, em seguida L.S. Marinho), e Octavio Gabus Mendes, correspondente da revista em São Paulo. O próprio diretor da revista, Mario Behring, sempre cauteloso, refere-se ao assunto em pelo menos dois editoriais. Nesse mesmo período, Adhemar Gonzaga faz sua primeira viagem aos Estados Unidos e assiste a filmes sonoros, mas curiosamente não escreve nada sobre o assunto. Ao lado do silêncio de Adhemar Gonzaga, porém, Cinearte publica, com alguma sistemática, pílulas informativas, comentários e artigos explicativos sobre o cinema sonoro. O assunto aparece em 3 números da revista no final de 1926; em 12 números ao longo de 1927; em 24 números em 1928. Por coincidência ou não, as ocorrências de 1928 publicam-se a partir de junho, após a assinatura do contrato das majors de Hollywood com a Western Electric, em 11 de maio de 1928, data que Douglas Gomery fixa como marco do advento do som ao cinema. Entre os temas que emergem da revista, podemos mencionar: o sucesso de Don Juan (apenas em junho de 1927 exibido no Brasil, em sua versão silenciosa); o sucesso apenas relativo de The Jazz singer (Alan Crosland), lançado em outubro de 1927, e o sucesso imenso de The Singing fool (Lloyd Bacon), lançado em setembro de 1928; a repercussão do sonoro na Europa; os diferentes sistemas de sonorização de filmes; os testes vocais realizados com astros do cinema silencioso; a contratação de atores de palco, que inicialmente se acredita mais capacitados para os filmes dialogados; a questão da perda da universalidade do cinema devido à língua e a possibilidade de se utilizar uma língua universal – o Esperanto, que fosse. A última questão é tratada também em notas que se referem a invenções que possibilitariam a dublagem dos filmes. A questão da linguagem cinematográfica emerge em alguns artigos traduzidos que se referem ao aperfeiçoamento no uso dos diálogos. Aflitivamente, contudo, esses acontecimentos não têm um suporte concreto na vivência dos redatores da revista. Talvez por isso a primeira reação que expressam seja a de repúdio ao surgimento do sonoro. Reação que será reforçada pelas manifestações de Charles Chaplin contra a intromissão da fala no cinema (por exemplo no artigo “Charlie Chaplin condena os filmes falados”, publicado Cinearte n.165, 24 de abril de 1929). A proposta, portanto, é investigar a reação expressa em Cinearte à nova tecnologia e a afirmações do tipo da feita por Alfred Goldsmith, vice-presidente da RCA Photophone: “Daqui a três anos, [...] quando alguém quiser ver um filme silencioso, terá que ir a um museu” (Cinearte n.131, 29 agosto 1928).
Bibliografia

Revista Cinearte. Crary, Jonathan. Suspensions of perception: attention, spectacle, and modern culture. Massachusetts Institute of Technology, 2004. Gomery, Douglas. The Coming of Sound. Oxon (Inglaterra): Routledge, 2004. Simmel, Georg. On individuality and social forms (editado por Levine, Donald L.). University of Chicago Press, s/d [primeira edição: 1972]. Thorburn, David e Jenkins, Henry (org.). Rethinking media change: the Aesthetics of Transition. Massachusetts Institute of Technology, 2004.