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  Título
Adaptação televisiva e esquemas cognitivos: o caso de Capitu
Autor
Renato Luiz Pucci Junior
Resumo Expandido
A exibição da microssérie Capitu, de Luiz Fernando Carvalho (Globo, 2008), resultou em apreciações desencontradas por parte da crítica, provavelmente em função de um ambivalente horizonte de expectativas propiciado pelo prestígio literário de Dom Casmurro, como também por considerações em torno da propalada baixa qualidade da programação da Rede Globo. Adaptação complexa do romance de Machado de Assis, a microssérie é constituída por um amplo conjunto de elementos que parecem raros ou inusitados na televisão brasileira, a começar do desvio em relação à classical television (Thompson), o estilo típico das telenovelas, derivado do cinema narrativo clássico, que define a narração segundo parâmetros naturalistas, isto é, que tendem ao "parecer real" da tradição cinematográfica e televisiva. Acresce que na microssérie são utilizados esquemas (schemata) habitualmente não considerados próprios da produção televisiva nacional, entendendo-se esquemas como padrões formais que possibilitam a representação concretizada no produto. São, por exemplo, soluções técnicas incorporadas à tradição do meio. Com base na teoria cognitivista (Hogan), espera-se identificar a origem desses esquemas de Capitu na programação televisiva dos últimos vinte e cinco anos. Trata-se de mostrar que as soluções de aparência inusitada ou estranhas, como os incontáveis anacronismos, as intrusões da narração (em parte corporificadas na figura do narrador Bento), o antinaturalismo alternado com esquemas naturalistas, além de outros componentes da microssérie, são provenientes de produtos que tiveram impacto na programação nacional, como Armação Ilimitada (1985-1988), O Auto da Compadecida (1999), A Invenção do Brasil (2000), Cena Aberta (2003), Dias de Glória (2003) e muitos outros exemplos de ficção pós-modernista. Todavia, Capitu se destaca por ter levado os esquemas já disponíveis a novos patamares de utilização, além inclusive do que o próprio Luiz Fernando Carvalho já havia proporcionado na microssérie Hoje é Dia de Maria (2005). Ainda segundo a teoria cognitivista, examina-se a hipótese de que a constituição de Capitu, na esteira dos títulos citados, é formada por estratos heterogêneos de pistas (cues) que visam tanto provocar a atenção dos telespectadores quanto evitar a sua desorientação. Assim, possibilita-se que uma audiência de enormes proporções, portanto constituída por públicos específicos, com repertórios e expectativas diferenciadas, tenha a possibilidade de acompanhar a microssérie sem as duas reações usuais de produtos que desagradam, o tédio e a ira, causadas pelo baixo estímulo cognitivo ou pelo seu excesso. A argumentação se contrapõe a avaliações de que as recentes produções televisivas de Luiz Fernando Carvalho constituiriam produtos isolados numa profusão incomensurável de produtos de baixa qualidade. Sem contar as transformações que têm ocorrido na própria classical television, em termos de refinamento estético e narrativo, deve-se considerar que a produção de Luiz Fernando Carvalho somente se tornou viável porque já se disseminara na televisão brasileira a tradição pós-modernista, que, embora jamais tenha chegado a ser hegemônica, estabeleceu esquemas de compreensão narrativa que em décadas passadas pareciam inacessíveis ao público habitual da programação da TV brasileira.
Bibliografia

BORDWELL, D. Narration in the Fiction Film. Madison: University of Wisconsin, 1985.

BORGES, G.; REIA-BAPTISTA, V. (Orgs.). Discursos e práticas de qualidade na televisão. Lisboa: Horizonte, 2008.

BRITTOS, V. C.; SIMÕES, D. G. Capitu: Literatura e sua Metamorfose em Produto do Mercado Televisivo. In: Intercom – X Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul, 2009, Blumenau, Anais, disponível em http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2009/resumos/R16-1185-1.pdf Acesso em: 05 abr 2011.

CANO, H. Ojo y Médio: Cine, Literatura, TV y Otras Artes Funerarias. San Sebastián: Meettok, 2010.

HOGAN, P. C. Cognitive Science, Literature and Arts: Guide Humanists. Nova York: Routledge, 2003.

HUTCHEON, L. A Theory of Adaptation. Nova York/Londres: Routledge, 2006.

NAREMORE, J. Film Adaptation. New Brunswick e New Jersey: Rutgers University, 2000.

THOMPSON, K. Storytelling in film and television. Cambridge e Londres: Harvard, 2003.