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  Título
Estudos de recepção: questões de método
Autor
Maria Luiza Rodrigues Souza
Resumo Expandido
Este é um trabalho exploratório sobre os problemas metodológicos e teóricos enfrentados pelas pesquisas de recepção cinematográfica. Interessa-nos aqui levantar questões sobre a metodologia empregada nos estudos de recepção, as técnicas associadas às investigações realizadas e discutir suas conexões com o trabalho antropológico da recepção fílmica.

Entender de que modo as imagens e sons agem na vida das pessoas e tentar compreender como estas recebem estes componentes pode ser uma das possibilidades da antropologia e de suas relações com o audiovisual.

É certo que o cinema, com suas imagens, sons e modos narrativos participa dos sentidos e das percepções que são construídas sobre o mundo. A partir do inconsciente óptico revelado pelas tecnologias de reprodutibilidade técnica (BENJAMIN, 1994), o que alterou o modo como percebemos o que está em nossa volta e, pela proximidade das imagens fotográficas ou cinematográficas com o onírico, com o que temos no mais recôndito interior, o cinema constitui um dos horizontes imaginativos (CRAPANZANO, 2004) através dos quais se vivenciam as esferas do real. Desde sempre, o cinema produz imagens do mundo, que têm consequências sobre os sentidos da própria ideia de humanidade. Tais sentidos são percebidos e construídos por quem assiste aos filmes, são elaborados pelas plateias, por grupos de espectadoras/es. Definitivamente o cinema participa da construção incessante do que podemos articular como possível ou impossível, real ou irreal, das relações entre identidade e diferença, da construção do nosso imaginário, enfim.

Apresentamos aqui questões sobre as conexões metodológicas entre antropologia e estudos de recepção, entendendo-os como sendo a compreensão do modo como o mundo cinematográfico é visto, através de seus produtos particulares, por aqueles e aquelas que consomem cinema. Falar em consumo abre um diálogo que pode ser instigante com o campo dos estudos antropológicos do consumo. A proposta geral desses estudos em, por exemplo, Canclini (2001) e Appadurai (1986), tem sido a de ressaltar como as mercadorias são ressignificadas pelos “consumidores”, algo que devemos notar em relação aos filmes, com uma hipótese metodológica para os estudos de recepção.

É necessário entender o cinema como representação e como produtor de afetos e sentidos no interior de um quadro que compõe o sistema mundial (DUSSEL, 2002; MIGNOLO, 2003). Isso quer dizer que, a depender do tipo de produção e da conexão da obra fílmica com o contexto em que sua audiência vive, outras relações podem ser enfatizadas: entre o local – quem assiste ao filme – e o mais distante – quem produz e quem vende, por exemplo. Para Canevacci (2001) estas relações podem ser compreendidas a partir da noção de glocal que traduziria uma interpenetração entre o local – esfera da experiência mais direta do espectator/a – e o global, face mais ampla das interferências mundiais ou globais.

Quando assistimos a um filme nos transportamos para outros mundos imaginários, outros locais e outras paisagens. É a esta viagem que a pesquisa sobre recepção fílmica deve atentar. De um ponto de vista antropológico, deve-se também ter a atenção voltada para as características do público, para os modos como as pessoas que assistem aos filmes se comportam e como se constituem as plateias, os grupos consumidores, os e as espectadoras. Quem consome cinema, como o faz e que significados dá a esta experiência? Estas questões constituem algumas das perguntas cruciais.

A fim de elaborar uma etnografia crítica dos estudos da recepção, teremos de privilegiar o conhecimento construído a partir da descrição do contexto espacial e temporal das audiências, o que determina as atribuições de sentido que estas dão à experiência de assistir a um filme. Assim, classe social, idade, gênero, raça, entre outros marcadores sociais, deverão ser levados em conta na estruturação das audiências. Procuraremos verificar como os/as autores/as respondem aos desafios metodológicos.

Bibliografia

APPADURAI, Arjun. The social life of things: commodities in cultural perspective. Cambridge : Cambridge University Press, c1986.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: __________. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Braziliense, 1994, p. 165-196.

CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores e cidadãos – conflitos multiculturais de globalização. Trad. Maurício Santana Dias. 4 ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001.

CANEVACCI, M. Antropologia da comunicação visual. Rio de Janeiro: DP&A, 2001

CRAPANZANO, Vincent. Imaginative horizons: an essay in literary-philosophical anthropology. Chicago: University of Chicago, 2004.

DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. Tradução Ephraim Ferreira Alves, Jaime A. Clasen e Lúcia M. E. Orth. Petrópolis-RJ:

Vozes, 2002.

MIGNOLO, Walter. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: UFMG, 2003.