/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A vamp e a mulher fatal no cinema das primeiras décadas do século XX
Autor
Cristian Carla Bernava
Resumo Expandido
Este trabalho visa discutir, a partir da análise de A Fool There Was (Frank Powell, 1915) e de O anjo azul (Der Blaue Engel, Josef von Sternberg, 1930), diferentes construções a respeito dos “perigos” relativos à sexualidade feminina no cinema das primeiras décadas do século vinte, tendo em vista a profunda influência que a caracterização de suas protagonistas teve sobre a maneira como a sexualidade feminina aparece no cinema desde então, a partir das figuras da vamp e da mulher fatal.

A vamp seria a mulher que, sem misericórdia, faz uso de sua sexualidade para manipular os homens, levando-os à ruína ou mesmo à morte, como acontece em A Fool There Was. Já a mulher fatal pode ser descrita como a mulher sexualmente atraente que, com frequência, causa problemas aos homens com quem se envolve, subvertendo suas identidades, como acontece em O anjo azul. Há, assim, uma proximidade entre estes dois tipos de personagens. Segundo Morin, “a vamp, saída das mitologias nórdicas, e a grande prostituída, saída das mitologias mediterrâneas, diferenciam-se e se confundem no seio do grande arquétipo da femme fatale” (MORIN, 1989, 8; grifos do autor), que se universaliza rapidamente durante a década de 1920.

Pode-se afirmar, contudo, que entre os personagens de Théda Bara em A Fool There Was, e de Marlene Dietrich em O Anjo Azul, a capacidade destrutiva da sexualidade feminina aparece menos intensamente na segunda narrativa. Isto ocorre, em primeiro lugar, em relação ao destino de cada uma de suas “vítimas”. Se a Vampira aparece como a imagem da maldade e do horror junto ao corpo sem vida do Sr. Schuyler na sequência final de A Fool There Was, Lola Lola reinicia seu ciclo de atração no cabaré, enquanto o Professor Immanuel Rath cede à exaustão agarrado à mesa de sua antiga sala de aula. Apesar da ambiguidade com que ele aparece na sequência final de O Anjo Azul, a cena propõe concomitantemente a esperança de sobrevivência do personagem e uma tentativa de resgate de sua identidade, ainda que ele, explicitamente, já não seja reconhecido como pertencente àquele lugar. Em segundo lugar, a capacidade destrutiva da sexualidade feminina é mais intensa em A Fool There Was do que em O Anjo Azul porque, no primeiro filme, a sexualidade da Vampira simboliza uma ameaça à família e à feminilidade burguesas. A feminilidade burguesa aparece em todas as suas facetas através das figuras da filha de Schuyler (a criança cuja felicidade é destruída pela ausência do pai), da sua cunhada (a jovem que se realiza pela conquista de um bom partido, o melhor amigo de Schuyler) e sua própria esposa (com quem a Vampira rivaliza diretamente). Ao destruir o casamento de Schuyler, a Vampira acaba por impedir a reprodução da ordem burguesa, que tem na família e no matrimônio algumas de suas principais instituições. Este poder é neutralizado em O Anjo Azul, uma vez que Rath é solteiro. Já não é a família que está em jogo, mas sim o lugar da sexualidade feminina na ordem social. O perigo que ela representa à estrutura burguesa só se realiza em casos excepcionais, como o de Rath que, ao casar-se com Lola Lola é excluído, tornando-se motivo de chacota. O personagem é, dessa maneira, construído a partir de uma distância em relação aos demais homens da narrativa: dono de uma moral que o impede de compartilhar as regras do jogo social, ele acaba aparecendo como um homem ingênuo, incapaz de reconhecer o lugar e a função da prostituta em sua sociedade. Isolada no cabaré – o lugar da realização da “ameaçadora” sexualidade feminina –, a prostituta também se situa num lugar apartado, distante e inacessível à mulher ajustada aos padrões de adequação da narrativa, simbolizada pela figura da empregada de Schuyler. Neste sentido, ele torna-se o espelho invertido da femme fatale: por estarem longe da média, individualizam-se os perigos que ambos simbolizam. Apartando os dois personagens dos demais, neutraliza-se, assim, a ameaça que ambos poderiam significar à manutenção da ordem social.

Bibliografia

Bibliografia citada:

MORIN, Edgar. As estrelas: mito e sedução no cinema. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

Bibliografia de trabalho:

BERGER, John. Modos de Ver. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

BORDWELL, David. “O cinema clássico hollywoodiano: normas e princípios narrativos”. In: Ramos, Fernão Pessoa (org.). Teoria contemporânea do cinema, Volume II: Documentário e narratividade ficcional. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005, pp. 277-301.

LIPOVETSKY, Gilles. La tercera mujer. Barcelona: Editorial Anagrama, 1999.

SIMMEL, Georg. “Psicologia do coquetismo”. In: _____. Filosofia do amor. São Paulo: Martins Fontes, 1993, pp. 93-111.

STAIGER, Janet. Bad Women – Regulating Sexuality in Early American Cinema. Mineápolis/Londres: University of Minnesota Press, 1995.