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  Título
O Cinema-Parábola de Nacer Khemir e Sua ‘Trilogia do Deserto’
Autor
Fernando de Mendonça
Resumo Expandido
Figura singular da moderna cultura árabe, Nacer Khemir é um homem das artes que, honrando o título, não dedica privilégios a códigos ou linguagens específicas. Filho das Mil e Uma Noites, seu princípio criativo parte de uma herança legada pelo saber ancestral de um povo e um lugar que encontra na narrativa a sobrevivência, a continuidade de uma sempre renovada tradição.



Poeta, romancista, escultor, caligrafista e arabista, o tunisiano Khemir (nascido em 1950) encontrou no cinema mais uma vertente para este exercício que lhe é tão caro: contar histórias. Os três longas que compõem sua refinada carreira, conhecidos em conjunto como formadores da "Trilogia do Deserto", abarcam um repertório de lendas, mitos e memórias da cultura árabe clássica que, pelo dispositivo audiovisual, são atualizados e acrescidos de novos significados e possibilidades de interpretação; são eles: "Andarilhos do Deserto" (1986), "O Colar Perdido da Pomba" (1992) e "Baba Aziz – O Príncipe que Contemplou Sua Alma" (2005).



Todos ambientados numa onipresença desértica, característica da geografia que toma quase metade da Tunísia com o Deserto do Saara, os filmes de Nacer Khemir fazem da virtualidade da areia a base para o entrelaçamento de suas alegorias sempre labirínticas, dos mitos que impregnam as imagens deste cinema com um caráter pictórico bastante estranho para os referenciais estéticos ocidentais. Do cinema enquanto parábola, Khemir configura um interesse pela imagem que ultrapassa as fronteiras de sua geografia para desenvolver temas de alcance universal, desprovidos de nacionalidade, mas pautados por uma língua (árabe) que precisa permanecer como caminho para que suas histórias não morram.



Nossa proposta, em continuidade ao que foi desenvolvido no Seminário Temático ‘Cinema, Transculturalidade e Globalização’, do XIV SOCINE (a partir de uma reflexão sobre "Gerry" e os cinemas de deserto) visa aprofundar um pouco mais o diálogo Cinema X Deserto. Aqui, serão abertos alguns novos aspectos agora impulsionados pela Trilogia de Nacer Khemir. Dentre eles, destacamos o caráter de produção transnacional – se o primeiro filme resulta de uma parceria apenas franco-tunisiana, o terceiro já será fruto de uma co-produção que envolve sete países distintos –, o sentido político do resguardo às línguas e tradições que nascem do deserto e a ele parecem retornar perpetuamente, assim como as conseqüências trazidas pela visão particular de Khemir sobre a relação intrínseca entre o deserto e o processo de ficcionalização narrativa.



Para Khemir, o deserto é um campo literário e abstrato ao mesmo tempo. É um lugar onde o infinitamente pequeno (grão de areia) e o infinitamente grande (vastidão do horizonte) se encontram. Segundo ele, o deserto evoca de tal forma a língua árabe que em cada palavra subsiste um fluxo de areia. Fonte da poesia e do amor, é neste deserto insondável que esperamos vislumbrar a maneira de Khemir adaptar todo um universo cultural para a imagem de cinema, em seu movimento, dinamicidade e articulação do tempo.
Bibliografia

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