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  Título
Estética e política do corpo no cinema: o devir nômade em Karim Aïnouz
Autor
Geisa Rodrigues
Resumo Expandido
Neste artigo proponho uma reflexão sobre a relação entre as escolhas estéticas e a dimensão política no cinema contemporâneo. Por meio da análise de três longas do diretor Karim Aïnoz: Madame Satã (2002), O Céu de Suely (2006) e Viajo porque preciso, volto porque te amo (Co-direção com Marcelo Gomes, 2009), procuro revelar de que forma os recursos expressivos do cinema podem funcionar a serviço de um pensar político produtivo no cinema brasileiro. Dado o imbricado processo que envolve as subjetividades contemporâneas, os lugares de resistência vinculados a um coletivo para a oposição a práticas repressoras definidas perderam sua potência. Dessa forma, para uma reflexão sobre as possíveis formas de resistência no cinema é importante articular as perspectivas teóricas e críticas sobre a lógica atual de poder com a análise dos recursos estilísticos e expressivos empregados. Neste sentido, algumas noções pontuais, a partir do trabalho de Foucault, Deleuze e Guattari se destacam, não apenas pela proposição crítica de novos formatos de poder, mas pela pressuposição de “linhas de fuga” e de experiências de resistência. Entre elas a visão do campo social como um espaço constantemente percorrido pelo desejo, e ao mesmo tempo capaz de ser subvertido e reinventado pelo desejo. Isso sugere que as estratégias e lugares de intervenção criativa, que inserem novas e mutantes possibilidades de experimentação, poderiam redefinir os territórios tradicionais de referência, que perderiam seu caráter fixo e definitivo. Singularidades manifestas no interior da própria concepção de biopolítica e de suas atualizações pós-disciplinares.

No campo do audiovisual, como resultado dessas transformações, nota-se uma valorização da experiência estética do corpo no espaço e no tempo. Alguns exemplos bem sucedidos no cinema contemporâneo, ou pelo menos aclamados pela crítica como tal, apontam para a potência de uma estética que, além de romper com formatos narrativos, problematiza a representação, privilegiando a experiência sensorial. Tal cinema parece se pautar especificamente num novo paradigma estético, proposto por Guattari, que surge nas últimas décadas, para lidarmos com o “agenciamento desterritorializado” contemporâneo, em que a potência estética de sentir, ou seja, o campo dos perceptos e afetos ganha uma posição privilegiada com relação aos agenciamentos coletivos de enunciação, mas ao mesmo tempo também poderá se constituir como foco de resistência (GUATTARI,1998, p. 132-134). Entretanto, sabemos que mesmo as “existências criativas” correm sempre o risco de serem agenciadas, na lógica do controle que se exerce em todas as partes do capitalismo tardio. A experiência estética do cinema é bastante suscetível a ser transformada em mercadoria esvaziada de sua materialidade política. E muitas vezes a própria necessidade de experimentar com o corpo surge como limite à inventividade. No contexto atual, para um pensar político efetivo no cinema, é preciso trabalhar formas expressivas capazes de instaurar um devir nômade para os personagens e situações, sem se dissolver numa estetização apática. Ou seja, não sucumbir à hipervalorização do particular e do sensorial, que em si já revela uma oposição dicotômica, entre individual e coletivo. Como estabelecer formas produtivas de resistência, num momento de estímulo à mobilidade e à multiplicidade identitárias, ou seja, quando a fuga à norma passou a ser a norma? Como agenciar o controle e, mesmo correndo o risco de por ele ser agenciado, estabelecer novos pontos de fuga? Sem a pretensão de elucidar tais questões, mas de problematizá-las, neste trabalho pretendo investigar os desafios de um cinema que precisa, cada vez mais, negociar com a imposição atual por formas fluidas e indefinidas de figuração, sem abandonar de vez a materialidade discursiva do corpo.

Bibliografia

AÏNOUZ, Karim. A política do corpo e o corpo político – o cinema de Karim Aïnouz. Revista Cinética, Rio de Janeiro, 2007. Entrevista. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/cep/karin_ainouz.htm.

DELEUZE, Gilles. A imagem- movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985

______________.Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992.

______________.Crítica e clínica. São Paulo: Editora 34, 1997.

DELEUZE, G. , GUATTARI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 5. São Paulo: Editora 34,1997

FOUCAULT, Michel. A vida dos homens infames, In Ditos e escritos IV. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

_______________.História da sexualidade I : a vontade de saber. 16 ed. Rio de Janeiro: Graal, 2005.

GUATTARI. Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Ed. 34, 1998.

PEIXOTO, Carlos Augusto. Sobre o corpo social como espaço de resistência e reinvenção subjetiva, In Lugar Comum, nº21-22, Julho-dezembro 2005. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. P.57-72