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  Título
As mulheres de Glauber: Rosa entre Deus e o Diabo
Autor
Alexandre Rocha da Silva
Resumo Expandido
Muitos são os artigos escritos sobre Glauber Rocha, sobre o Cinema Novo e sobre Deus e o Diabo na Terra do Sol. Três expressões centrais da cultura brasileira que neste artigo são revisitadas desde um ponto de vista desconstrucionista que tem como ponto de partida a função sígnica desempenhada pelas mulheres – e em especial por Rosa - no filme de Glauber.

Compete à desconstrução rearranjar micropoliticamente os vetores de sentido, invertendo os valores nele contidos. Assim, Deus e o Diabo na Terra do Sol - que tem sido habitualmente pensado a partir de sua inserção no Cinema Novo, de sua importância estética em relação ao cinema brasileiro, de sua linguagem inovadora, de sua crítica política – é aqui recontado a partir de um de seus vetores minoritários: a presença da mulher.

Do ponto de vista metodológico, propõe-se, como preconiza a desconstrução, colocar Rosa, personagem secundária interpretada por Yoná Magalhães, no centro da trama para daí fazer variar os sentidos do filme. Rosa entre Deus e o Diabo explora as semioses engendradas pela personagem em suas múltiplas relações: com o marido Manuel, com o Sebastião, com Dadá, com Corisco. Em cada encontro um jogo que, em última instância, vai tecendo a trama do filme, com protagonismo inesperado: o protagonismo de quem, à sombra, ardilosamente dita as regras da ação e das transformações efetivas e confere a cada parceiro o papel actancial que desempenhará. É Rosa quem se contrapõe ao marido, que age impulsivamente desde o assassinato do coronel que o explora no início do filme até a fuga em direção ao mar no final do filme, mesmo que o acompanhe em toda a trama. Também é ela quem assassina o beato e é ela quem carrega no ventre o novo filho do cangaço ao se encontrar com Corisco. Sua relação com Dadá, mulher de Corisco, instaura na trama uma lógica sensual do feminino: a preocupação das mulheres – ao contrário daquela dos homens ocupados com a guerra – é a de gerar o novo povo brasileiro. Sob este aspecto, a cena em que Dadá entrega a Rosa o véu, a flor e o lenço ritualiza um agenciamento de passagem cujo clímax surge na cena do beijo entre Rosa e Corisco ao som de Villa Lobos.

Assim, o que se espera poder demonstrar são os agenciamentos minoritários de sentido que, de dentro da obra cinematográfica, tendem a instituir interpretações desconstrucionistas, essas capazes de fazer variar micropoliticamente nossos hábitos interpretativos naturalizados.

Bibliografia

BENTES, Ivana. Transe, Crença e Povo. IN: Cadernos de Subjetividade. São Paulo: PUC-SP, 1993.

CORRÊA, André; SILVA, A.R. Glauber e os Signos. In: C. B. de C. da Com., XXXIII, 2010, Caxias do Sul, RS. Anais da XXXIII Intercom. 1 CD-ROM.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo: cinema 2. São Paulo: Brasiliense, 1990.

ROCHA, Glauber. Eztetyka do sonho/Uma estética da fome. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha: Textos e entrevistas com Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996.