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  Título
A produção de cinema em Pernambuco sob uma perspectiva empreendedora
Autor
José Roberto Ferreira Guerra
Resumo Expandido
A safra atual de filme produzidos em Pernambuco revela uma crescente profissionalização do setor. Como forma de acessar o campo de prática dos produtores de cinema responsáveis por tal mudança e entendidos nesse estudo como empreendedores culturais, foram realizadas entrevistas com Leonardo Lacca e João Júnior produtores da Trincheira Filmes e da REC Produtores Associados respectivamente. Eles são representantes de estágios diferentes da produção de cinema em Pernambuco. A Trincheira é uma produtora mais jovem e conhecida pelos seus curtas-metragem, como “Muro” e “Décimo Segundo”. Já a REC é mais madura e está fortalecida no campo de produção de longas-metragens, como os filmes “Cinemas, Aspirinas e Urubus” e “Baixio das Bestas”.

Sobre a perspectiva teórica, uma definição possível para o termo empreendedorismo cultural é encontrada no estudo de Banks et al. (2000, p. 453). Para os autores, esse empreendedor é caracterizado como aquele “diretamente relacionado com a produção de bens e serviços culturais: produtos cujo principal valor é simbólico, derivado da sua função como portadores de significados — em imagens, símbolos, sinais e sons” (tradução nossa). Essa definição nos auxilia na construção de um arcabouço teórico que aproxima termos oriundos da gramática do empreendedorismo (como inovação e flexibilidade, por exemplo) com conceitos advindos do campo da cultura (como símbolos e signos).

A ação de empreender é compreendida como unidade de reprodução social, articulando alternativas em prol de novas formas de comunidade e associação (BANKS et al., 2000). Nesse sentido, Jameson (2004) mostra que essas práticas culturais constituem novas estratégias de representação, assim como uma nova práxis que caminha para estabelecer uma gama de possibilidades artísticas inovadoras. Sobre esse aspecto, destacamos a existência de uma correspondência entre o produto cultural e a subjetividade de quem o faz (RAFFO et al, 2000).

Como forma de acessar metodologicamente o campo de prática dos produtores-empreendedores, elaboramos um protocolo teórico-metodológico pautados nos modelos de análise cultural propostos por Johnson (2004), Hall (2008), Du Gay et al. (1997). O momento da “produção” de cada circuito foi sobreposto a fim de chegarmos a uma síntese da etapa responsável pela elaboração dos bens culturais. As dimensões que compõem esse protocolo estão dispostas em dois eixos, o público e o privado, subdivididos em categorias de análise que circunscrevem a ação do produtor. O alinhamento entre o conceito do empreendedorismo e os circuitos de cultura analisados nos auxiliou a compreender a dinâmica do produtor de cinema sob a ótica do empreendedorismo cultural.

As categorias que emergiram na análise que compõem a dimensão pública nos a necessidade de manter a profissionalização do setor, a existência de diferentes modos de produção, o posicionamento contrário ao cinema hegemônico e a intervenção direta do Governo como responsável pela articulação e estruturação do setor. Por sua vez, as categorias emergentes da dimensão privada destacaram muitas semelhanças entre as trajetórias dos produtores, culminando na projeção de um campo discursivo no qual a maior parte dos discursos envolvidos não apresenta divergências explícitas no tocante às estruturas de relacionamento utilizadas por esses produtores.

Podemos observar também que a projeção dos realizadores culmina em um imbricamento do indivíduo com o aparato institucional do setor.
Bibliografia

BANKS, M.; LOVATT, A.; O’CONNOR, J.; RAFFO, C. Risk and Trust in the Cultural Industries. Geoforum, 31, 2000, p. 453-464.

DU GAY, P.; HALL, S.; JANES, L.; MACKAY, H.; NEGUS, K. Doing Cultural Studies: the story of the Sony walkman. Londres: Sage, 1997.

HALL, S. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. 2. reimp. rev. Belo Horizonte: Editora UFMG; 2008.

JAMESON, F. Marxismo e Teorias do Pós-moderno. In: _______. Espaço e Imagem: teorias do pós-moderno e outros ensaios. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2004.

JOHNSON, R. O que é, afinal, Estudos Culturais? In: SILVA, T. T. (org. e tra.) O que é, afinal, Estudos Culturais? 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004, p. 07-131.

RAFFO, C.; O’CONNOR, J.; LOVATT, A.; BANKS, M. Attitudes to Formal Business Training and Learning amongst Entrepreneurs in the Cultural Industries: situated business learning through ‘doing with others’. Journal of Education and Work. v. 13, n. 2, 2000, p. 215-230.