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  Título
Atos de resistência em Juventude em marcha
Autor
Mario de Almeida Cascardo
Resumo Expandido
Com a trilogia das Fontainhas – “Ossos” (1997), “No Quarto da Vanda” (2000) e “Juventude em Marcha” (2006) –, a obra de Pedro Costa passou a ser associada a um cinema político segundo autores como Jacques Rancière e Jean-Louis Comolli. A relação do diretor com os personagens, lugares e espectadores faz dessa trilogia um ato de resistência (DELEUZE, 2003), no sentido deleuziano do termo. De um filme a outro, Pedro Costa se interessa cada vez mais pelos excluídos e opta por formas de produção que lhe oferecem a liberdade estética e o tempo necessários para instaurar com as pessoas filmadas uma relação de partilha (RANCIERE, 2005). Abordaremos aqui os gestos de resistência assumidos em “Juventude em Marcha”, último filme realizado por Costa na favela das Fontainhas. Em “Juventude em Marcha”, o cabo-verdiano Ventura aparece como uma figura monumental, quase sempre enquadrado em contre-plongée. Falando um português estranho à Lisboa onde vive, ele vaga pela cidade, resignado por um realojamento forçado de sua casa nas Fontainhas para um conjunto habitacional do governo. Apesar da situação precária, ele compartilha experiências cotidianas com outras pessoas: ajuda Vanda a cuidar de sua filha, joga cartas com seu filho, Lento, visita o amigo Paulo no hospital, ouve e conta histórias. Embora vivendo em um universo miserável e moribundo, Ventura e esses personagens são afirmativos em suas formas de vida singulares. Pedro Costa registra essas pequenas histórias e os enaltece, trabalhando com planos longos e fixos, além de iluminação e enquadramentos sóbrios que extraem beleza de situações adversas. Há uma resistência nos seus procedimentos de mise en scène. Como diz Rancière, Costa evita a estetização da miséria. Ele divide a experiência cinematográfica com as pessoas filmadas e “afirma uma arte na qual a forma não se separa da construção de uma relação social ou da realização de uma capacidade que pertence a todos” (RANCIÈRE, 2005). Ele resiste a roteirizar e iluminar artificialmente aquelas vidas – como fizera em “Ossos” –, permitindo que haja por parte dos personagens uma auto-afirmação diante da câmera: Ventura compõe uma carta poética ao longo do filme e Vanda, à beira da morte no filme anterior, ressurge revigorada pelo nascimento de sua filha. A auto-afirmação dos personagens é reiterada pela repetição de gestos e atitudes. Como um leitmotiv, a carta de Ventura a sua mulher é recitada oito vezes e parece reforçar a cada vez a própria experiência do imigrante. Esse tipo de afirmação não significa para os personagens uma superação de suas fragilidades e incapacidades, mas a possibilidade de dar forma as suas narrativas. Como diz Rancière, “o monumento [a forma artística] transmite o sofrimento, o protesto e a luta de seres humanos. Mas o faz transmitindo o que é aparentemente oposto a isso: (...) a canção das forças do caos que fazem resistir o desejo humano de transformação.” (RANCIERE, 2009). A carta de Ventura é sua forma de organizar o próprio lamento. Ele vive uma situação de perda de autonomia social e a carta o religa as suas origens e ao seu destino (RANCIERE, 2010). Ao ditar a carta, Ventura torna-se o narrador ativo de sua história e, pela repetição do texto, o filme sugere a resistência de um personagem fragilizado pelo realojamento que lhe foi imposto. Como afirma Foucault, “não existe, com respeito ao poder, um lugar da grande Recusa – alma da revolta, foco de todas as rebeliões, lei pura do revolucionário. Mas sim resistências, no plural, que são casos únicos: possíveis, necessárias, improváveis, espontâneas (...)” (FOUCAULT, 1988) A carta, os monólogos, a repetição de gestos, a colocação dos atores em cena e no quadro podem ser vistos como atos de resistência. Localizaremos no filme “Juventude em Marcha” essas inscrições, que partem tanto do gesto político de um cineasta engajado quanto de uma tomada de posição das pessoas filmadas diante do dispositivo cinematográfico, como fazem Vanda e Ventura.
Bibliografia

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder – a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008. DELEUZE, Gilles. Qu’est-ce que l’acte de création? In: Deux Regimes de fous. Paris: Les Éditions de Minuit, 2003. P.291-302 FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988. P.91 NEYRAT, Cyril (org). Dans la chambre de Vanda – conversation avec Pedro Costa. Nantes: Capricci, 2009 RANCIÈRE, Jaques. A Partilha do Sensível. São Paulo: Editora 34, 2005. __________. The Emancipated Spectator. Londres: Verso, 2009. __________. A Carta de Ventura, In: catálogo da mostra O Cinema de Pedro Costa. CCBB, 2010. RANCIERE, Jacques. Política da Arte, transcrição do seminário “São Paulo S.A, práticas estéticas, sociais e políticas em debate” (São Paulo, SESC Belenzinho, 17 a 19 de abril de 2005) Disponível em http://www.sescsp.org.br/sesc/images/upload/conferencias/206.rtf