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  Título
Metodologias de quadro a quadro
Autor
Ana Paula Nunes
Resumo Expandido
A relação entre o Cinema e a Educação é de longa data, podemos remeter aos construtivistas russos, do início do século XIX, as primeiras manifestações de ideais pedagógicos através do cinema. No entanto, esta parceria nunca esteve tão em alta como atualmente, em que há uma grande reconfiguração do tripé produção, distribuição e exibição no campo cinematográfico, cada vez mais legitimando processos colaborativos dentro de uma lógica pós-industrial, e favorecendo os deslocamentos entre o quadro-tela do cinema/vídeo e o quadro negro da sala de aula.

O Cinema, como prática cultural, é atravessado por uma série de interrelações presentes no imenso universo da cultura e suas possibilidades de leitura: seja através do apontamento da distinção pelo olhar sociológico, seja através da preservação da identidade/ pluralidade cultural pela ótica antropológica, ou ainda por meio de uma forma de conexão/ desconexão de acordo com teorias da comunicação.

Marcelo Gruman, representante Ministerial no Encontro Ibero-Americano de Educação Artística e Cultura (Cidade do México, 2010), apresenta em seu artigo, Sobre o ensino de artes no Brasil, um panorama histórico das conferências, encontros e ações internacionais direcionadas a fortalecerem a relação dialógica entre Cultura e Educação, desde a criação da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, em 1945. A Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), por exemplo, dedica parte de seus esforços para o fortalecimento dos vínculos entre educação e cultura nos sistemas escolares.

Gruman, como uma voz do Estado, destaca ao longo de todo o texto a importância das práticas culturais no ensino regular, pois, dentro de uma visão antropológica, representam excelentes ações potencializadoras do encontro com a alteridade, porque dão sentido às nossas experiências, ao estar-no-mundo.

Estamos falando de um direito assegurado na legislação brasileira, como pode-se ler no capítulo II, da educação básica, seção I, art. 26, parágrafo 2o: “O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos” (Lei no 12.287, de 2010). Porém, por mais que os Parâmetros curriculares nacionais de arte, de 1998, procurem administrar as diversas expressões artísticas dentro da disciplina “Artes”, o único campo artístico que conseguiu se posicionar de forma diferenciada na educação foi o da música (além da Literatura, é claro), conforme Lei no 11.769, de 2008.

Como o campo cinematográfico se colocará neste debate?

Embora cada dia que passa surjam novos projetos mobilizando a união entre o cinema (referência primeira do audiovisual) e a educação, como o “Cinemação: uma idéia na cabeça, um celular na mão” - práticas educomunicativas realizadas com as linguagens audiovisuais, na Secretaria Estadual de Educação da Bahia, que representou o Brasil no Encontro Ibero-Americano de Educação Artística e Cultura, na Cidade do México; pouco tem se pensado nos estudos acadêmicos de cinema sobre as metodologias possíveis e desejadas (ou não) nessa aproximação.

Deste modo, pretende-se aqui contribuir com um estudo de médodo, resgatando a teoria sobre a “linguagem total” de Antoine Vallet, difundida na América Latina por Francisco Gutierrez, de forma comparativa com a contemporânea “hipótese-cinema”, de Alain Bergala. Trata-se de um esforço de reflexão recheado de paradoxos, pois pode-se esvaziar totalmente a força de uma expressão artística transformando o processo de conhecimento e criação em receita. Como Bergala chama atenção: a arte é anti-institucional. Como podemos reivindicar um projeto de educação audiovisual ao Estado, por direito, sem correr os riscos de criarmos uma doutrina pedagógica? Como manter a coerência ideológica quando nos depararmos com as dificuldades práticas e profundas da educação básica brasileira?
Bibliografia

BERGALA, Alain. A Hipótese-Cinema. RJ: Booklink e CINEAD/UFRJ, 2008.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 6. ed. SP: Perspectiva, 2007.

CANCLINI, Néstor García. Diferentes, desiguais e desconectados. 2 ed. RJ: Ed. UFRJ, 2007.

GRUMAN, Marcelo. Sobre o ensino de artes no Brasil. MinC, 2010. Disponível em: http://www.cultura.gov.br/ Acesso: 15/03/2011

GUTIERREZ, Francisco. Linguagem Total: uma pedagogia dos meios de comunicação. SP: Summus, 1978.

LEANDRO, Anita. Da imagem pedagógica à pedagogia da imagem. Comunicação e Educação, v.21, p.29-36, SP: ECA/USP, 2001.

MIGLIORIN, Cezar. Por um cinema pós-industrial. Revista Cinética, 2011. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/cinemaposindustrial.htm. Acesso: 11/02/2011

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Legislação Educacional, de 2003 a 2010. MEC, 2010.

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros curriculares nacionais: arte. Brasília: MEC /SEF, 1998.

VALLET, Antoine. Du Cine-club au langage total. Paris: Ligel, 1968.