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  Título
Um encontro sonoro em Belleville: vozes, música e ruídos em uma narrativa não-verbal
Autor
Ana Luiza Pereira Barbosa
Resumo Expandido
Desde o advento do cinema sonoro, a palavra falada reina o universo cinematográfico. Na grande maioria das produções, a voz é colocada em primeiro plano dentro em uma hierarquia dos elementos sonoros, fazendo-se valer de todo o seu poder de expressão, conteúdo semântico, caracterização do personagem emissor, etc. No entanto, durante toda a história do cinema narrativo ficcional, diversos cineastas têm desafiado essa hierarquia e manipulado os elementos sonoros para criar efeitos dramáticos diversos. Hitchcock, Lang e Tati são alguns exemplos de diretores que fizeram com que o verdadeiro cinema sonoro não fosse o sinônimo de cinema falado.



No cinema de animação, diversos autores também colaboraram com essa descentralização do diálogo. Em sua produção de séries de animação no início do cinema sonoro – Mickey Mouse e Silly Symphonies – , Disney faz o uso do som de maneira bem distinta da maior parte da produção de cinema de ação ao vivo, colocando o diálogo em segundo plano e fazendo amplo uso de música e ruídos para compor a ação. Essa tendência, embora em parte abandonada por Disney na sua produção de longas-metragens após Fantasia (1940), foi incorporada pelo cinema de animação a partir dos anos 40 como podemos observar em séries como Coiote e Papa-léguas e Tom & Jerry, que migraram para a televisão nas décadas seguintes.



Já a produção de longas-metragens de animação desde os anos 40 até o presente consiste em sua grande maioria de filmes com narrativa baseada em diálogos, herança do cinema de ação ao vivo clássico. As Bicicletas de Belleville (2003), de Sylvain Chomet, aparece como uma das exceções dentro dessa tendência. Em seus aproximadamente 80 minutos de duração, pouquíssimas linhas de diálogos são utilizadas para contar a história. Na verdade, o filme pode ser compreendido inteiramente sem a interpretação dos idiomas falados (inglês e francês). Mesmo nos diálogos, pouco importa o conteúdo semântico para o entendimento do enredo. Diversas vezes, como nos trechos durante o torneio Tour de France - onde escutamos uma voz caracterizada como locução de rádio ou teletransmissão narrando o evento (on-the-air, segundo CHION, 1994) - as vozes são utilizadas para criar uma ambientação, aproximando-se mais do uso narrativo do walla (vozerio) do que um recurso para narrar alguma ação específica da diegese.

Uma característica visual do filme é o exagero e apelo no design dos personagens, um recurso para expressividade plástica possibilitada pelo cinema de animação e um dos fatores que estão diretamente ligados à opção pelo não uso de diálogos. A forma geométrica exagerada dos personagens é um recurso visual aplicado pelo diretor que facilita a identificação dos personagens mesmo que eles não emitam falas. É interessante notar que existe aí um tipo de inter-relação que de certa forma nos remete aos filmes silenciosos: recursos visuais para suprir a falta de som sincronizado. O exagero na expressão e movimento dos personagens (pantomimas), utilização de planos que indiquem eventos sonoros e visualização de palavras escritas tanto em objetos de cena quanto graficamente (intertítulos) são alguns dos recursos utilizados antes do advento do som sincrônico para evocar o som que não poderia ser reproduzido juntamente com a imagem. No entanto, quando tratamos de um filme atual, o uso de tais recursos pode ser trabalhado de outra forma, através da articulação de elementos sonoros para criar novas inter-relações de som e imagem.



Chomet incorpora em seu filme a pantomima sonora, que dialoga com o cinema de Jacques Tati: elementos sonoros compõem um personagem e tornam-se sua “voz”, de maneira não-verbal. A ausência de diálogos abre as portas para um trabalho de design sonoro extremamente proveitoso, onde torna-se possível estabelecer uma inter-relação diferenciada entre os elementos sonoros em relação à hierarquia tradicionalmente seguida pelo cinema narrativo de forma geral, em que a palavra falada encontra-se em primeiro plano.
Bibliografia

BEAUCHAMP, Robin. Designing sound for animation. Boston: Focal Press, 2005.

CHION, Michel. Audio-vision: Sound on screen. New York: Columbia University Press, 1994.

CLAIR, René. The art of sound. In: WEIS, Elisabeth & BELTON, John, eds., Film Sound: Theory and Practice. N. York: Columbia Univ. Press, 1985.

CURTIS, Scott. The sound of the early Warner Bros. cartoons. In: ALTMAN, Rick (ed.). Sound Theory/Sound Practice. N. York: Routledge, 1992.

GOLDMARK, Daniel. Sonic Nostalgia and Les Triplettes de Belleville. In: COYLE, Rebecca. (ed.) Drawn to Sound: Animation Film Music and Sonicity. London: Equinox, 2010.

MANZANO, Luiz Adelmo F. Som-imagem no cinema: a experiência alemã de Fritz Lang. São Paulo: Perspectiva/FAPESP, 2003.

MIRANDA, Suzana Reck. Duas vozes para o som no cinema: Tati e Bresson. Artigo publicado em: ADES, Eduardo et alli (org.). O Som no Cinema. Coletânea de textos para a mostra e curso na Caixa Cultural (SP e RJ), 2008.