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  Título
O sujeito da história e a história do sujeito no doc biográfico
Autor
denise tavares da silva
Resumo Expandido
A decisão biográfica no cenário contemporâneo move-se, basicamente, por dois eixos: a importância da vida (e/ou obra) do sujeito biografado, e o propósito de falar de “um” para falar do “todo”, isto é, configurar um “tipo representativo” de um universo mais abrangente. No primeiro caso, bebe-se na fonte da própria trajetória da biografia enquanto gênero, consolidada, segundo Dosse (2009), na lógica de que o futuro nada mais é do que a reprodução do presente e, portanto, precisa que este se perpetue em suas virtudes, tarefa que o relato de nobres vidas trata de abraçar. Já o segundo eixo estabeleceu-se no confronto entre o indivíduo e as categorias mentais da sua época, definido por Levi (2006) como “biografia modal”, que ganha fôlego a partir dos anos 1930, colado à revolução do Annales. O documentário não ignora estes caminhos consolidados que, a mais ou a menos, são referências do gênero. Por outro lado, o documentário contemporâneo, tal como todo o cinema, revolve-se em um cenário marcado pela expectativa de ir além das tradições - seja de gênero, seja dos cânones narrativos, seja para estabelecer diálogo com a ideia de que a arte, afinal, só assim o é, se traduz ou traz inquietações.

Tal expectativa é alimentada por diversos parceiros: o digital e a gama de possibilidades que embute; a própria historicidade do cinema, que permite o diálogo em continuum com realizadores e obras; a possibilidade de ressignificações do material fílmico das mais diversas origens e, por fim, a incorporação de outras linguagens e artes, no interior da obra. Não bastasse, no caso específico da biografia, incorporam-se os dilemas que atravessam o gênero. Do mais banal – como contar uma vida? – à perspectiva contemporânea da fragmentação do “eu” e percepção que a identidade de um indivíduo implica em múltiplas e diferenciadas representações que podem, inclusive, ser contraditórias.

Se a abertura proporcionada pelos “novos” companheiros de travessia escancaram trilhas outras para o documentário biográfico, resta, ainda, uma espécie de pacto que se estabelece a partir do instante em que o centro do projeto é o indivíduo. Como, então, equilibrar o sujeito da história e a história do sujeito, de modo que se escape da armadilha embutida nos dois principais eixos que sustentam o gênero? Ao mesmo tempo, se a proposta é não mergulhar no “docudrama” - cada vez mais identificado com as séries televisivas ou imbricado no jornalismo -, como buscar a representação do sujeito sem que esta dependa, exclusivamente, do discurso direto sobre ele, ou seja, de entrevistas? Ainda, como não transformar o contexto histórico em uma moldura rígida que sirva apenas como pano de fundo ou só apareça para preencher possíveis lacunas narrativas? E, finalmente, como impedir que a sombra do presente não obscureça ou se sobreponha aos contornos da vida, obra, lugar e feitos do biografado?

Tais questões, que configuram o recorte desta comunicação e integram pesquisa sobre o documentário biográfico no Brasil e América Latina, ganham contornos ainda mais embaralhados quando a identidade do biografado não é exatamente um indivíduo, mas sim um grupo, como ocorre em Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez (Brasil); Malditos (La Historia de los Fiskales Ad Hok), de Pablo Insunza (Chile) e Saicomanía, de Héctor Chaves (Peru). Nestes filmes, cujos biografados são, respectivamente, os Dzi Croquette (grupo brasileiro que nos anos 1970 se tornou um dos símbolos da contracultura no país, desafiando a ditadura militar por suas posturas); Los Fiskales Ad Hok, (banda chilena surgida em 1986, que enfrentou Pinochet) e, finalmente, Los Saicos, (fenômeno peruano, de 1968, considerado precursor do punk), acrescenta-se, a tantas armadilhas que rondam o documentário biográfico, o desafio de conformar a identidade de um “sujeito-obra” sem que tal articulação impeça que os contornos singulares diluam-se no grupo ou que este fique acima do tempo e espaço em que existiu.



Bibliografia

BEAUVAIS, Yann. Filmes de Arquivo. In Revista do Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, 2004.

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In FERREIRA, M.M.; AMADO, J. Usos & abusos da história oral. 8ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2006.

DOSSE, François. O Desafio Biográfico – Escrever uma vida. São Paulo: Edusp, 2009.

FABRIS, Mariarosaria. Nem tudo é verdade, nem tudo é mentira. In HAMBURGER, E., SOUZA, G., MENDONÇA, L. AMANCIO, T. (orgs). Estudos de Cinema Socine. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2008.

LEVI, Giovanni.Os usos da biografia. In FERREIRA, M.M. e AMADO, J. Usos & abusos da história oral. 8ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2006.

RUSSO, Eduardo A. Hacer Cine – Producción Audiovisual em América Latina. Buenos Aires/Barcelona/México: Paidós, 2008.

TENDLER, Silvio. A reconstrução da memória. In Revista do Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, 2004.