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  Título
Reincidências do gênero musical durante o atestado midiático do dom
Autor
Andrea Limberto Leite
Resumo Expandido
Pretendemos estudar a forma como o gênero musical manifesta-se na produção audiovisual nacional – e discutiremos o que se pode entender por tal gênero, suas heranças, cristalizações e deslocamentos -, levando em conta especialmente produções que permitam pensar limites entre: a assunção de modelos estrangeiros (notadamente anglo-saxões) e o que se identifica formalmente como elemento local (que por vezes remetem à cultura popular e outros imaginários locais); a reposição da questão dos gêneros no cruzamento das produções para diferentes meios, como a televisão e o cinema.

Representando o que seria estritamente cinematográfico tomamos Os Desafinados (2008), filme dirigido por Walter Lima Jr. Em que um grupo de músicos vão a Nova Iorque tentar o sucesso. A referência que se quer externa ao filme é a relação com os artistas e o movimento da chamada Bossa Nova.

Um híbrido entre o que se consagrou como show televisivo e depois verteu num projeto de filme temos High School Musical – o desafio (2010). A versão nacional (realizada depois das versões argentina e mexicana) é dirigida por César Rodrigues e foi precedida, a partir de fevereiro do mesmo ano da produção fílmica, por uma seleção de talentos perpetrada pelo canal televisivo Disney Channel e também exibida pelo canal de TV aberta SBT, conhecida como HSM – a seleção.

E, em terceiro lugar, um programa que poderia ser categorizado como reality show (especificamente talent show), mas que, como pretendemos mostrar, herda características do gênero musical no cinema. Ídolos é o programa adaptado a partir do Pop Idol britânico (primeira temporada em 2001) e depois American Idol nos Estados Unidos (primeira temporada em 2002) e hoje em sua décima temporada. O programa foi veiculado no Brasil durante duas temporadas pela rede de televisão SBT (2006 e 2007) e, na seqüência, por três temporadas pela Rede Record (2008 a 2010), gozando em todos os casos de bons índices de audiência.

Propõe-se uma análise das produções selecionadas segundo dois percursos, num primeiro observaremos as referências a um certo cânone do gênero musical cristalizado na linguagem audiovisual e, num segundo, a duplicação da referência a esse mesmo gênero na narrativização do sucesso/fracasso das personagens com a música. Nossa hipótese de trabalho é de que o gênero musical se hibridiza hoje com a estrutura de relato sobre relato que inclui o ato de apontar, no âmbito da narrativa mesmo, para a música incluída. A segunda hipótese, derivada da primeira, é a de que o imaginário local se faz presente nessa abertura.

Podemos notar ainda, no processo de hibridização do gênero, uma aproximação possível entre as linguagens televisiva e cinematográfica, além da abertura para novas mídias como a internet: em Os desafinados temos a divulgação do filme no site Youtube e a realização de shows por uma banda real com o mesmo nome do filme; em High School Musical temos a chamada para concurso de seleção de elenco pela internet e, com relação a Ídolos, muitos dos vídeos das audições estão disponibilizadas pelos candidatos.

Instaura-se nas instâncias da narrativa e fora dela um embate entre o sucesso e perpetuação de um padrão e seu desvirtuamento. Propomos para o recorte em direção ao gênero musical uma atenção especial à narrativa do dom como organizadora da encenação. Refazendo os mesmos dois percursos que propusemos, agora pela perspectiva do dom, temos em princípio a relação humana entre dom e dádiva, como pensado no conceitual antropológico e, depois, o indivíduo situado na ordem do reconhecimento que se realiza na situação encenada de sua legitimação.

Observaremos, assim, como ocorre o processo de atestar midiaticamente o dom e especialmente os processos de identificação de sua presença mágica na figura das personagens músicos ou candidatos a ídolo. Entendemos que a sustentação dos preceitos que reconhecem logicamente o dom repõem coletivamente na mídia, mais uma vez, os parâmetros global/ideal e local/pulverizado/diverso.
Bibliografia

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MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: EPU/Edusp, 1974.

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