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  Título
Procedimentos estilísticos em mockumentaries relacionados à série Lost
Autor
Eduardo Tulio Baggio
Resumo Expandido
Os mockumentaries televisivos “Oceanic 6 - uma conspiração de mentiras” e “A Iniciativa Dharma” (episódio da série “Os Mistérios do Universo”) foram produzidos e exibidos pela rede norte-americana de televisão ABC. O objetivo era que fossem produtos associados – mesmo que isso não fosse dito abertamente – à série televisiva “Lost” e que, além de gerar audiência, deveriam ser chamarizes e/ou complementos para a narrativa de “Lost”.

Para que isso fosse possível os dois documentários falsos utilizaram estratégias estilísticas (narrativas, de linguagem e estéticas) que remetem à tradição do cinema documentário. Assim, poderiam parecer aos espectadores como documentários tradicionais, baseados em asserções sobre a realidade (RAMOS, 2008), mesmo que isso fosse, evidentemente, desmentido com o passar do tempo.

A partir de procedimentos como a voz over e as imagens descritivas, típicas do documentário clássico, ou as entrevistas, típicas do documentário interativo (PENAFRIA, 1999), foi possível para os realizadores da ABC estabelecer parâmetros narrativos e de linguagem particularmente conhecidos da média de sua audiência, mesmo considerando espectadores de diversos países. Tais parâmetros permitiram criar uma imbricada co-relação entre os produtos audiovisuais envolvidos – a própria série “Lost” e os dois mockumentaries – com a diluição das noções de ficção e de não-ficção que cada estilo propõe tradicionalmente.

Diferente de outros mockumentaries, já muito discutidos e observados, os dois analisados aqui trazem a particularidade de estarem envolvidos em uma ampla gama de produtos paralelos criados pelos realizadores de uma série de televisão. Tratam-se de sites, blogs, anúncios televisivos, micro-episódios para celulares, games, além dos mockumentaries. Todos esses produtos compõem uma estratégia que vai além da divulgação, pois complementam a narrativa da série, em um modelo de audiovisual expandido trabalhando com a convergência de vários meios (JENKINS, 2008).

Partindo do pressuposto que era um interesse da ABC com seu projeto para a série “Lost” criar uma relação dúbia entre ficção e não-ficção, deixando surgir em alguns dos seus subprodutos a ilusão de vínculos com a realidade, cabe questionar como isso foi feito.

“Oceanic 6 - uma conspiração de mentiras” utiliza características narrativas e de linguagem típicas de documentários televisivos voltados a casos em que se busca compreender algum acontecimento passado, especificamente, a queda de um avião. Para isso, são empregadas uma série de procedimentos como reconstituições, entrevistas com especialistas, imagens de apoio etc. Narrativamente os argumentos caminham numa proposição lógica que se baseia em comparações com acontecimentos anteriores semelhantes ao que está sendo exposto. Desta forma, o mockumentary acaba por referenciar, primeiramente, os próprios documentários de televisão de linguagem tradicional, e, em segundo plano, os documentários da tradição expositiva (PENAFRIA, 1999).

“A Iniciativa Dharma” foi apresentado pela ABC como sendo um episódio da série de documentários televisivos “Os Mistérios do Universo”, que teriam sido produzidos originalmente nos anos 80. Em suas características básicas, usa o mesmo tipo de construção para argumentação presente em “Oceanic 6 - uma conspiração de mentiras”, portanto remetendo principalmente ao documentarismo clássico, mas com características estéticas bastante particulares. Para que fosse convincente a sugestão de que teria sido produzido no início dos anos 80, “A Iniciativa Dharma” precisava parecer com um documentário da ABC desta época. Para isso foram emulados aspectos como a imagem em vídeo de baixa resolução, dropouts, interferências e até uma logomarca antiga. Além disso, remete ao passado pelo texto empregado e por características das imagens, entre outros elementos que serão exemplificados na comunicação. Por fim, ainda será abordada a comparação entre os dois mockumentaries, suas intenções e a repercussão de ambos.
Bibliografia

JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2008.

SANTAELLA, Lúcia. Linguagens Líquidas na Era da Mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.

FECHINE, Yvana. Televisão e Presença. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2008.

NICHOLS, Bill. Introdução ao Documentário. São Paulo: Papirus, 2005.

MACHADO, Arlindo; VÉLEZ, Marta Lucía. Documentiras y fricções. O lado escuro da lua. Revista Galáxia, São Paulo, n. 10, p. 11-30, dez. 2005.

PENAFRIA, Manuela. O Filme Documentário: história, identidade, tecnologia. Lisboa: Edições Cosmos, 1999.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas Afinal... O que é mesmo um documentário? São Paulo: SENAC, 2008.

____________________ Teoria Contemporânea do Cinema. Volume II. São Paulo: SENAC, 2005.

RABIGER, Michael. Tratado de Dirección de Documentales. Barcelona: Ediciones Omega, 2007.

VANOYE, Francis. O espectador. In: GARDIES, René (ORG). Compreender o cinema e as imagens. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 2007.