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  Título
As fronteiras do cinema marginal: novas perspectivas de análise
Autor
Cyntia Araújo Nogueira
Resumo Expandido
A comunicação tem como objeto de análise a mostra e o livro-catálogo Cinema Marginal Brasileiro e suas Fronteiras – Filmes produzidos nos anos 60 e 70 (2001), com organização e curadoria de Eugênio Puppo. A hipótese trabalhada é a de que, ao constituírem contextos renovados para a recepção dos filmes, mostra e catálogo representam um momento privilegiado de revisão crítica dessa produção, dentro de um esforço de renovação do discurso histórico sobre o cinema brasileiro.

Matriz de novos cânones estéticos e políticos para gerações mais jovens de cinéfilos e críticos, a grande atenção conferida pela mostra ao produto catálogo, que contou com 62 textos inéditos, revela o desejo de difundir não apenas um conjunto relevante de 43 obras raras, em sua maioria pouco vistas e debatidas, mas também de constituir uma fonte de pesquisa e referência para se pensar esses filmes a partir diferentes matizes.

Tendo em vista que a principal tradição crítica de pensamento sobre o cinema brasileiro, consolidada a partir dos anos 60, edificou seus parâmetros de análise e classificação a partir das noções de “autoria” e “nação”, conceitos que, como observa Bernardet (1994), tiveram um forte impacto também na construção de um discurso histórico sobre o cinema produzido no país, buscamos observar de que forma os textos reunidos nesse catálogo possibilitaram uma renovação crítica e histórica do chamado cinema marginal brasileiro.

De acordo com pressupostos teóricos da Estética da Recepção e, em particular, do pensamento de Hans Robert Jauss (1994), consideramos aqui o novo não apenas como uma categoria estética, mas também como uma categoria histórica. Para Jauss, se a reconstrução do horizonte de expectativa sob o qual uma obra foi criada e recebida no passado possibilita descortinar as questões para as quais ela foi resposta, a pergunta reconstruída é sempre abarcada pelo horizonte de expectativa do presente - e o entendimento, resultado da fusão desses dois horizontes.

Ampliando essa abordagem para a análise das obras e a história do cinema brasileiro, o objetivo é mapear como “mostra”e “catálogo” contribuíram para resgatar um horizonte de expectativa passado, construir um horizonte de expectativa presente e, por fim, possibilitar um novo contexto de recepção e de produção de sentido para os filmes exibidos.

Nesse sentido, destacamos: 1) o questionamento da própria denominação “marginal” ou, até mesmo, da validade, hoje, de categorias como “cinema novo” ou “cinema marginal”, fortemente marcadas por conformações político-ideológicas do período, para análise do cinema de vanguarda dos anos 60 e 70; 2) a ênfase aos deslocamentos que os filmes reconhecidos sob essa rubrica promoveram – ou continuam a promover - no que se refere à idéia de nação e ao tratamento do tema da identidade brasileira.

Observa-se, assim, que, no contexto da última década, quando, diante das novas configurações políticas-institucionais do cinema no Brasil, a tendência é de “retomada do que havia de mais ‘contratual’ no Cinema Novo” (Xavier, 1995), a ênfase nas diferenças estéticas e nas visões de Brasil apresentadas por esses dois movimentos encontram um momento de forte atualização, em que os sentidos “marginal”, ou mesmo, numa chave oposta, “marginalizado”, perdem força diante das noções de “criatividade”, “experimentação” e de “independência ideológica”.

Ao eleger os ícones do cinema marginal como objetos de culto, um segmento importante da crítica que surge nesse período constrói também um espaço de legitimação para si própria, tanto pelo acúmulo de um conhecimento especializado sobre filmes raros e de difícil acesso, quanto pela defesa de valores como “autenticidade”, “experimentação” e “independência”, através dos quais passam a disputar autoridade cultural e poder de influência sobre a construção de uma memória histórica (Halbwachs, 1990).

Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. O autor no cinema. A política dos autores: França, Brasil anos 50 e 60. São Paulo: Brasiliense:Editora da Universidade de São Paulo, 1994.

_____________. Historiografia clássica do cinema brasileiro: metodologia e pedagogia. São Paulo: ANNABLUME, 1995.

____________ e GALVÃO, Maria Rita. Cinema: repercussões em caixa de eco ideológica. São Paulo/Rio de Janeiro: Brasiliense, Embrafilme, 1983.

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo: Ática, 1994.

PUPPO, Eugênio (Org.). Cinema Marginal e suas fronteiras - Filmes produzidos nos anos 60 e 70. Brasília, Centro Cultural Banco do Brasil, 2004.

ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

XAVIER, Ismail. O cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.