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  Título
Descontinuidade e ressignificação no curta-metragem Sobre os anos 60
Autor
Marco Aurélio Teles Freitas
Resumo Expandido
A construção de uma narrativa a partir da utilização de imagens de arquivo e a apreensão de sua significação no chamado curta de montagem Sobre os anos 60 (1999), realizado por Jean-Claude Bernardet, são o objeto de estudo do presente trabalho. Na ordem das ressignificações, tal como propõe Bernardet, como essas imagens, inseridas em uma nova montagem, que, como a montagem discursiva de Eisenstein, “interrompe o fluxo de acontecimentos”, pode conduzir os espectadores a uma apreensão de “diferentes” significados da década de 60 na história do Brasil?



Como referencial teórico dessa abordagem, utilizaremos o próprio Bernardet que em “Subjetividade e imagens alheias: ressignificação” descreve ressignificação de imagens como um processo de morte e vida, construção e desconstrução. “Destruição porque a significação que este plano tinha originalmente será perdida, ou no mínimo alterada. Vida, porém, porque ganhará uma nova significação ao ser inserido na nova montagem (BERNARDET, 2000, P.32).” Ao mesmo tempo, estará envolvendo todo o trabalho a concepção de historiografia do cinema desenvolvida por Bernardet, já que o filme utiliza recortes de produções realizadas em outro período e representa a história social e política do Brasil, mas também cinematográfica daquela época.



Também contribuirão para o estudo os pensamentos de Xavier que em “O discurso cinematográfico: opacidade e transparência” aborda a montagem discursiva de Eisenstein. Tal qual esta montagem, a de Sobre os anos 60 “marca a intervenção do sujeito no discurso através da inserção de planos que destroem a continuidade do espaço diegético, que se transforma em parte integrante da exposição de uma idéia” (XAVIER, 1984, p108).



Até por se tratar de imagens de filmes diferentes, a justaposição dos planos selecionados para Sobre os anos 60 abandona a relação lógico-natural de um acontecimento para adotar uma descontinuidade. Este processo, de que lança mão o diretor Bernardet, será utilizado para reconstruir a representação de um período histórico (a década de 60 no Brasil). Oportunamente, o resultado da produção fílmica em sua forma vai se coadunar com o que outro pensador que pretendemos explorar, Walter Benjamin, diz a respeito de História: fragmentação, descontinuidade.



Pretendemos sustentar, a partir de tais apontamentos, que a reconstrução de significados da história do Brasil da década de 60 no filme de Bernardet está relacionada com a montagem discursiva que foi utilizada e com o processo de ressignificação de imagens recortadas de outros filmes.

Bibliografia

BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.



BERNARDET, Jean-Claude. A subjetividade e as imagens alheias: ressignificação in Psicanálise, cinema e estéticas de subjetivação / organizadora, Giovanna Bartucci. – Rio de Janeiro: Imago Ed., 2000.



_______. Cineastas e imagens do povo. 3 ed. São Paulo: Companhia das letras, 2003.



_______. Cinema brasileiro : propostas para uma história. — São Paulo : Companhia das Letras, 2009.



_______. Historiografia clássica do cinema brasileiro: metodologia e pedagogia. 3ª ed. São Paulo, Annablume, 2004.



TOMAIM, Cássio dos Santos. Cinema e Walter Benjamin: para uma vivência da descontinuidade. in: Revista Estudos de Sociologia. Nº16, 2004.



XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. – Rio de Janeiro: Paz e Terra., 1984.