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  Título
A reapropriação dos arquivos televisivos no documentário Ônibus 174
Autor
Guilherme Bento de Faria Lima
Resumo Expandido
A cobertura televisiva do sequestro do ônibus 174 na Rua Jardim Botânico no dia 12 de junho de 2000 mobilizou inúmeros profissionais das diferentes emissoras de televisão e possibilitou o registro de um amplo acervo de imagens. Segundo estimativas, a transmissão deste acontecimento foi acompanhada por um público de, aproximadamente, 35 milhões de espectadores. É importante enfatizar, também, que a sociedade atual é marcada por um fluxo de informações frenético e que a participação da mídia na elaboração de discursos é cada vez mais forte. Jean-Louis Comolli aponta a preocupação com a imagem como algo moderno e questiona o estoque de imagens que cada um tem para administrar. O cineasta francês afirma, também, que “como lugar onde o poder é exercido sobre os outros, a televisão é exemplar. O poder daqueles que ocupam a tela sobre aqueles que a olham.” O poder conferido às imagens midiáticas parece ser fundamental na estruturação e na legitimação dos espetáculos contemporâneos. Marilena Chauí aponta, entre outros aspectos, para a credibilidade conferida às imagens midiáticas por conta de sua visibilidade. Em 2002, José Padilha lança seu documentário “Ônibus 174” no qual adota, como uma das principais estratégias para reapresentar o acontecimento, a resignificação destas imagens midiáticas. Executa uma espécie de “arqueologia” das imagens que assemelha-se à proposta de trabalho executada pelo cineasta alemão Harun Farocki. A partir de imagens originadas de diferentes fontes – emissoras de televisão com posicionamento político divergentes – organiza uma montagem na qual retrabalha arquivos para apresentar um novo discurso. Parece, desta forma, fundamental recuperar este material bruto televisivo e efetuar uma investigação, não apenas sobre a forma de apropriação e seleção destes arquivos efetuada pelo cineasta, mas também a origem precisa de cada uma delas. Uma minuciosa análise dos arquivos parece ser necessária para decifrar aspectos deste acontecimento que ainda permanecem ocultos ou nas margens de imagens pouco observadas. Exercitar o olhar em busca de indícios, de pistas que possam ter sido deixadas de fora ou consideradas menores para o processo de reconstrução de memória deste acontecimento. Uma iniciativa inspirada, em certa medida, na pesquisa da historiadora francesa Sylvie Lindeperg acerca do documentário Noite e Neblina de Alain Resnais. A imagem não é tudo, não possui uma verdade absoluta, de acordo com Didi-Huberman, para extrairmos aprendizado dela é necessário que ela seja trabalhada na montagem. Ou seja, é possível investigar em uma imagem aspectos que, num primeiro olhar, passaram desapercebidos ou não foram considerados relevantes. Desta forma, por mais burocrático que seja negociar o acesso à este material bruto com cada uma das emissoras de televisão retomá-las parece ser uma oportunidade para realizar este procedimento proposto pelo filósofo e historiador francês.
Bibliografia

CHAUI, Marilena. Simulacro e poder: Uma análise da mídia. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 2006. COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Ed. UFMG, Belo Horizonte, 2008. DIDI-HUBERMAN, G. Images malgré tout. Paris: Les Editions de Minuit, 2003. __________________. Quand les images prennent position. Paris: Les Éditions de Minuit, 2009. ELSAESSER, Thomas. Harun Farocki – Working on the sight-lines. Amsterdam University Press, 2004. HAMBURGER, E. Políticas de Representação: ficção e documentário em Ônibus 174. IN MOURÃO, Maria Dora & LABAKI, Amir (org.). O cinema do real. São Paulo: Cosac & Naify, 2005. LINDEPERG, Sylvie & COMOLLI, Jean-Louis. “Images d’archive: l’emboîtement des regards” (entretien). Images Documentaires, Paris, nº 63 – Regards sur les archives, 2008, p.11-39. MACHIN, D. & JAWORSKI, A. Archive video footage in news: creating a likeness and index of the phenomenal world. Visual Communication 2006.