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  Título
Autodocumentário: memória e experiência na contemporaneidade
Autor
Candida Maria Monteiro
Resumo Expandido
Ao criticar os avanços da técnica na sociedade moderna, Benjamin observou que o tempo dedicado a troca de experiência de caráter coletivo (erfahrung),não existe mais.O ritmo da vida cotidiana só deixa espaço para um tipo de experiência,de natureza individual (erlebnis). Essa transformação marca o início da modernidade, momento em que o acumulo contínuo de estímulos externos transforma profundamente o modo de subjetivação, surgindo um tipo específico de experiência, a chamada experiência de choque, efêmera e solitária, deixa o homem incapaz de contar suas histórias.

Na contramão dessas circunstâncias, surge a tendência de um tipo de documentário: a autobiografia filmada. Tal manifestação pode ser compreendida como uma forma de experiência específica da nossa época. O autodocumentário se distingue do documentário clássico ao quebrar o paradigma de observar o outro. Esse documentário quase que doméstico, feito na primeira pessoa, só é possível graças a democratização das tecnologias de captação de imagem. A rigor, trata-se de um paradoxo, se de um lado as tecnologias afastam o homem do seu mundo interior, de outro, possibilitam a realização de diários filmados. Nessa perspectiva, o autodocumentário se volta para uma pesquisa subjetiva, onde o autor encarna também o personagem da narrativa. O diretor/autor recorre, assim, a dispositivos específicos na estruturação de seu filme, tais como: a) entrevistas com familiares e amigos; b) utilização de fotografias de família. Recursos fundamentais para evocar a memória e conduzir a história.

O gênero autobiográfico tem algumas características especiais, tais como o uso de diversos materiais que comprovariam a veracidade dos fatos narrados, como cartas, diários íntimos, fotos, álbuns, entre outros. O princípio fundamental que move a narrativa autobiográfica é a garantia de uma existência real. O valor do relato autobiográfico está, assim, vinculado a verdade. A prática da escrita de si vai se empenhar, portanto, em construir uma verdade sobre uma vida. Contudo, o compromisso do relato autobiográfico não está ligado com o que aconteceu, mas com a forma de narrar o acontecido. Uma autobiografia se interessa mais pelas impressões e sentimentos do que com os fatos em si. “Posso cometer omissões nos fatos, transposições, erros de datas; mas não posso me enganar sobre o que senti, nem sobre aquilo que meus sentimentos me levaram a fazer; e é principalmente deles que aqui se trata”. (Duque-Estrada, 2009, p 19)

A fotografia representa uma prova de verdade no autodomentário. Decorre daí sua força no desencadeamento dessa narrativa. A fotografia desempenha o papel de testemunha do passado, libertando a narrativa do seu vínculo com o real. Por seu aspecto indicial, a fotografia é a única imagem capaz de confirmar o que é dito, conferindo, desta forma, veracidade ao relato.

No contexto do documentário intimista, a fotografia torna-se objeto de culto porque representa a própria imagem da tradição. Nesta perspectiva, o “aqui e agora” está presente na imagem fotográfica, a aura do passado está ali, a foto de família é um testemunho do tempo e do lugar daquele grupo. O tempo (tradição) e o espaço (mobilidade) são reconfigurados a partir da imagem fotografia. “Nenhuma obra de arte é contemplada tão atentamente em nosso tempo como a imagem fotográfica de nós mesmos, de nossos parentes próximos, de nossos seres amados”.(Benjamin, 1985, p.103)

Invariavelmente, o registro fotográfico traz somente a harmonia tribal, a felicidade, o sorriso, o abraço, a brincadeira. A câmara não se interessa pela tristeza, dramas, crises ou conflitos da família. As imagens de família omitem os dissentimentos.

Ao utilizar a fotografia na construção da narrativa autobiográfica, o documentarista restaura a aura do álbum de família. Cria novas estéticas para a fotografia tradicional, recolocando-a no suporte digital, ao mesmo tempo, lança mão da tecnologia para combater o esquecimento provocado pelo avanço da própria tecnologia.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1985.



CHARNEY, Leo e SCHWARTZ, Vanessa. O Cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.



DUQUE-ESTRADA, Elizabeth Muylaert. Devires Autobiográficos. Rio de Janeiro, PUC-Rio, 2009.



GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 2004.



HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.

JOBIM e Souza, Kramer, S. ( orgs.). Politica, cidade, educação: itinerários de Walter Benjamin. Contraponto/PUC-Rio, 2009.

SONTAG, Susan. Sobre Fotografia. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2004.