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  Título
Retrato Audiovisual e Paisagem Sonora
Autor
Diego Hoefel
Resumo Expandido
Na passagem entre a luz e a escuridão, num abrir e fechar de diafragma forma-se a imagem fotográfica. O congelamento dos corpos, a interrupção dos movimentos, a suspensão. Cada fotografia opera um recorte temporal. O golpe que possibilita que os bailarinos flutuem, os bebês nunca cresçam e as décadas não passem. Ali, à nossa frente, o registro do que já não é, mas que permanece sendo, naquele retângulo. Em cada clique, a microexperiência da morte. De súbito passamos a ser espectros: imagens do que já não é mais vivo em nós. Não é a toa que a fotografia é tão comumente associada a uma impressão de passado. Embora todos os aparelhos de produção de imagem operem sutis anacronismos, a imobilidade e o corte temporal típicos da imagem fotográfica reforçam a fantasmagoria de seus objetos, em especial quando se trata de um retrato. Culto da saudade, ausência latente. Certeza da existência do encontro de outrora, momento em que o rosto atingiu o suporte fotográfico e nele deixou sua impressão. A fotografia além de ícone é também índice, documento que aponta para a pré-existência do sujeito que ela denota. Nesse sentido, ela constrói signos que podem ser comparados aos cinematográficos. No caso específico do cinema, no entanto, o desenvolvimento temporal das imagens introduz uma outra relação entre o espectador e a obra. O movimento não somente amplia a impressão de realidade, mas também constantemente atualiza o quadro, colocando o espectador em um desenrolar de ineditismos análogo à experiência cotidiana. Tanto a fotografia quanto o cinema compõem seus quadros a partir de uma subtração do mundo. Os limites do retângulo supõem uma continuidade, algo que, embora não possa ser visto, tem sua existência subentendida. Há, no entanto, uma diferença entre o fora de campo fotográfico e seu equivalente no cinema. A imagem em movimento, em razão da montagem, da continuidade e, principalmente, do som, faz com que o que não está sendo visto permaneça ativo diegeticamente. Na fotografia, embora o fora de campo componha o sentido em associação com o que está enquadrado, esse espaço não apresenta risco, dele não podem surgir ineditismos. Já no cinema, tudo o que ocorre na contiguidade do fora de campo possui tanta importância narrativa quanto aquilo que ocorre dentro do quadro. Quando analisamos um retrato audiovisual, percebemos que o elemento que mais fortemente poderá estabelecer as relações de fora de campo é o som. A não referência espacial que surge em razão do close faz com que a paisagem sonora seja a responsável pela localização espacial do retratado. Um mesmo rosto pode estar em frente a um rio, ou em uma cidade movimentada, ou escutando uma música, ou em quase silêncio, tudo depende do som que se escuta à medida que se contempla essa imagem. Segundo Deleuze, a face funciona culturalmente como uma máquina abstrata que abarca o indivíduo inteiro, na qual se abrem buracos negros de subjetividade. Diante disso, é possível dizer que a representação de um rosto compõe um simulacro que busca abarcar não somente o registro das feições, mas também uma faísca da personalidade, um resquício de vida, de pensamento. Essa faísca não pulsa somente no instante da captura. Ela surge também de um segundo encontro, de uma atualização, que se dá no momento em que o espectador reanima os espectros fotográficos, na recepção. A contemplação como um sopro de vida aos fantasmas é um motes desta investigação. Parto da premissa de que o retrato audiovisual compõe imagens espectrais, presenças que não se desenrolam com a impressão de tempo presente que é característica do cinema, mas que também não estão estáticas, paradas em um tempo passado, como na fotografia. O entre-tempo do retrato audiovisual potencializa a possibilidade de significação desta faísca de personalidade dos retratados.
Bibliografia

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