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  Título
Eu recuso: dos objetos aos abjetos
Autor
Cléber Eduardo
Resumo Expandido
No contundente e paradigmático artigo “Da abjeção”, publicado em junho de 1961 na Cahiers du Cinema, o crítico e cineasta Jacques Rivette estabelece uma recusa a “Kapo” (1960), de Gillo Pontecorvo, em artigo cuja importância está em consagrar, no pensamento sobre cinema, uma relação entre forma e moral (ou forma e política). Não se trata de julgar o filme pelos fatos narrados, sequer pelo êxito técnico dessa narração. O que está em questão são princípios norteadores dos procedimentos: uma noção de realismo espetacular, calcado em reconstituição dos campos de concentração, maquiados de forma grotesca, de modo a tornar suportável a experiência. Para localizar uma evidência da doença estética (ou imoralidade formal), Rivette vai a uma ferida exposta no corpo do filme: o plano em que uma personagem se joga contra um arame farpado eletrificado, com um travelling para a frente para reenquadrar o cadáver em contraplongée. Para Rivette, o diretor responsável por essa operação só tem direito ao mais profundo desprezo.



O Holocausto é um nervo aberto para o pensamento sobre a imagem, como reflete Georges Didi-Huberman. Para Rivette, é questão de modo, de mise en scène, de travellings. Para nós em 2011, é menos importante concordarmos ou não com a sentença de Rivette, a partir desses critérios calcados em uma medida de encenação justa, mas ecoarmos a dúvida de Serge Daney, que, em 1992, no artigo “O travelling de Kapo”, questiona se os jovens ainda conseguem recusar algo no cinema, após a televisão e a publicidade. Rivette já profetizava isso em seu texto, afirmando que o horror, ao qual nos habituamos aos poucos, habita a paisagem mental do homem moderno. E interroga: “quem poderá, da próxima vez, se espantar ou se indignar com aquilo que terá deixado de ser chocante?”.



Atualizamos essa indagação de Rivette e a dúvida de Daney, a partir de determinadas operações de filmes contemporâneos, mas com uma tomada de posição no sentido de revitalizar a recusa, a repulsa, a abjeção, como forma de rejeitar um vale tudo no campo da imagem, que normaliza a exibição em tele-noticiários de imagens de assassinatos gravados por câmeras de vigilância, chegando, em um caso recente, a se congelar a imagem no rosto de um assaltante no exato momento de seu último espasmo facial. Se na hora do jantar essas imagens estão no ar fora de seus contextos e de suas dores, que limite pode se esperar do cinema em suas operações? Não se trata de censura ou patrulha, mas de ver nas escolhas formais modos de olhar as coisas e nos levar a vê-las de certo modo.



Em nossa atualização, levamos em consideração certas operações de montagem de “Estamira”, de Marcos Prado, e uma determinada sequência de “A pessoa é para o que nasce”, de Roberto Berliner, operações trapaceiras com suas personagens, deslocando a discussão do campo da justa representação de uma situação histórica para o campo ético e estético das relações de poder entre realizador e personagens no documentário, que parecem deixadas de lado em certos momentos em nome do efeito espetacular e narrativo. Em “Estamira”, levamos em consideração um corte da imagem e da voz do filho, que define a mãe como louca, para uma imagem dela aos berros, em surto, a confirmar o filho. Em “A pessoa para o que nasce”, a decisão do diretor de sair do quarto do hotel, mas deixar sua indiscreta câmera filmando suas personagens desprovidas de visão.



Bibliografia

BAZIN, André. “Morte todas as tardes”. Cahiers du Cinéma, 1951.

_____.“À margem de O erotismo no cinema”. Cahiers du Cinéma, 1957.



DANEY, Serge. “O Travelling de Kapo”, Trafic, Paris, 1992.



EDUARDO, Cléber. “Por um resgate da abjeção – Alô, alô, Terezinha, de Nelson Hoineff”. Cinética. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/cinepe09aloaloteresinha.htm



DIDI-HUBERMANN, Georges. Images malgré tout. Paris: Éditions de Minuit, 2003.



MOULLET, Luc. “Sam Fuller: nos passos de Marlowe”. Cahiers du Cinéma 93, 1959. Disponível em: http://focorevistadecinema.com.br/moullet-marlowe.htm



RIVETTE, Jacques. “Da abjeção”, Cahiers du Cinéma 120, 1961.

_______; GODARD; ROHMER; KAST; DONIOL-VALCROZE; e DOMARCHI. “Horoshima, notre amour”. Cahiers du Cinéma 97, 1959.