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  Título
Re-existir em tempos mortos: o cinema ao ritmo do Tango de Satã
Autor
Tadeu Capistrano
Resumo Expandido
Satántangó (1994) narra o colapso de uma fábrica nos tempos finais do comunismo, no interior da Hungria, onde trabalhadores formam um rebanho desempregado e sem direção à espera de um pastor para guiá-los. Imersos numa atmosfera de desesperança e expectativas, resta a esses indivíduos o mal estar da exclusão: a sobrevivência em “tempos mortos” que atravessam as ruínas das antigas formas de trabalho e de vida.



Nessa esteira que articula cinema, política e resistência, o filme de Bela Tarr enuncia e faz visível a vida concebida como força de trabalho, cuja existência engrenada pelo ritmo temporal das linhas de montagem sofreu uma radical desarticulação na aurora da globalização. Nesse período assistimos a transição da ênfase do poder laboral sobre os “músculos moldados” das mecânicas industriais para as “modulações da vida mental”, ou cognitiva, dinamizada, reformatada e conectada aos imperativos de produção, consumo e informatização do pós-fordismo. Tal descompasso nas formas tradicionais de trabalho produziram novas ordens biopolíticas baseadas em processos de inclusão e exclusão sociais cujas vivências conflitam o universo da vida “on-line” com a da crescente “off-line”.



Diante dessa dinâmica de poder, ser “fora de linha” não implica apenas ficar à margem dos novos processos de produção, mas também estar suspenso da ordem cronopolítica que rege a sociedade global. Se por um lado tal condição produz “precariedades” sociais, sobretudo no que diz respeito ao acesso à comunicação e informação, por outro também possibilita explorar criativamente a experiência temporal da duração, permitindo sabotar a "sobrevivência ao tempo" e experimentar a "supervivência no tempo" em sua heterogeneidade. Tal estratégia constitui uma aposta de ruptura com os atuais empregos do biopoder e suas novas conduções do “animal humano”, outrora metaforizado como um “autômato de relojoaria” e agora pensado como um “autômato de feedback”, construído e interconectado por redes de informação.



Este novo espírito do capitalismo, que atravessa e corrói a paisagem de Sátántangó, é subvertido através de uma narrativa orquestrada por coreografias temporais de longas durações, que propicia uma partilha sensível da experiência do tempo entre personagens e espectador. Esta melancólica dança audiovisual articula, portanto, duas temporalidades excluídas das linhas de montagem, tanto fabril como cinematográfica: os marginalizados dos atuais imperativos de trabalho e aqueles que ainda buscam no cinema uma experiência de tempo capaz de unir estética e pensamento político. Como em um tango, aqui o cinema celebra a força de resistir e dançar entre as ruínas da modernidade, com toda a ironia e potência de seus tempos mortos.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: Obras Escolhidas (V.1).São Paulo: Brasiliense, 1985.

BOLTANSKI, Luc; e CHIAPELLO, Eve. O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

DELEUZE, Gilles. A imagem tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx: o estado da dívida, o trabalho de luto e a nova Internacional. Rio de Janeiro: Relume Dumará,1994.

NEGRI, Toni; e HARDT, Michael. Império. Rio de Janeiro: Editora Record,2006.

RANCIÉRE, Jacques. A partilha do sensível. São Paulo: Editora 34, 2005.

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. Tome 3: Le temps du cinéma et la question du mal-être. Paris, Editions Galilée, 2001.

VIRNO, Paolo. Gramática de la multitud: para un análisis de las formas de vida contemporâneas. Buenos Aires: Colihue, 2008.