/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O cinema como materialidade discursiva
Autor
Julia Scamparini
Resumo Expandido
O cinema felliniano apresentou-se, em minha pesquisa de doutorado, como solo para o desenvolvimento de uma investigação teórica e prática sobre a relação entre palavra e imagem a partir do conceito foucaultiano de formação discursiva. Procurou-se, primeiramente em textos escritos, identificar um rol de conteúdos que compunham um sentido de identidade italiana para os italianos, ou seja, entender como a identidade italiana era tratada e entendida por aqueles que a tomavam como assunto. Em seguida, foi investigada a retomada do tema em Fellini, reconhecendo em sete de seus filmes “dizeres” sobre a identidade italiana, alguns reiterados, outros questionados, muitos criticados.

O conceito de formação discursiva de Michel Foucault une – se seu leitor não se limitar a entender texto como texto escrito – textos de materialidades diversas como formas possíveis de manifestação enunciativa e, assim, permite um estudo sobre a configuração de enunciados fílmicos a partir de seu paralelismo com enunciados verbais. É uma opção, portanto, por conceber o cinema como meio que se relaciona com a dimensão verbal da linguagem, a qual constitui condição de sua estrutura e legibilidade. Ainda que seja o verbal a tradicional fonte em que são reconhecidos discursos de uma sociedade em determinada época, são igualmente importantes, assim, os dizeres que estão presentes na trama fílmica, uma vez que também informam o horizonte de pensamento em que uma sociedade se move. Segundo Sorlin (2004, p. 10), o cinema é “um termômetro particularmente sensível para avaliar a passagem do não dito ao perfeitamente claro”. Admitimos que o não dito se encontra, muitas vezes, nas entrelinhas dos discursos difundidos, impressos em livros ou em correntes de ideologia, e, paralelamente, não deixa de se manifestar em filme – também em suas entrelinhas.

O diálogo entre uma formação discursiva e sua presença em material fílmico foi observado através do discurso da identidade italiana, identificado em escritos italianos da História e da Sociologia, e filmes de Federico Fellini, todos eles textos que se vinculam por materializarem tal formação discursiva. O que se pretende com esta proposta de comunicação é discutir a aplicação de uma proposta de metodologia de análise que parte da noção de formação discursiva de Michel Foucault e se aprofunda ao se aplicar à linguagem cinematográfica, mas que foi apenas uma vez somente testada. Acreditamos que a revisão desta experiência e uma discussão sobre novas possibilidades de investigação de uma formação discursiva em filme serão responsáveis por aprofundamentos teóricos que definitivamente consolidarão o cinema como documento sociológico de arquivo discursivo.

Bibliografia

AUMONT, Jacques et al. Estetica del film. Torino: Lindau, 1998

BERTETTO, Paolo (org.). Analisi e decostruzione del film. Roma: Bulzoni, 2007.

CASETTI, Francesco. La realtà dell'immaginario: i media tra semiotica e sociologia. Milano: Vita e Pensiero, 2003.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2004.

________. “As palavras e as imagens” In MOTTA, M.B. (org). Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. - Coleção Ditos & Escritos II. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2000.

________. “Isto não é um cachimbo” In MOTTA, M.B. (org). Estética: Literatura e pintura, música e cinema. Coleção Ditos & Escritos III, p. 247-263. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2001.

SORLIN, Pierre. Sociologia del cinema. Milano: Garzanti, 1979.

________. “Cinema, identità, nazione” In CAVALLO & FREZZA (org.). Le linee d'ombra dell'identità repubblicana: comunicazione, media e società in Italia nel secondo novecento. Napoli: Liguori, 2004.