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  Título
Escola engenho: criação de uma escola de cinema pra crianças no Recife
Autor
Mariana Porto de Queiroz
Resumo Expandido
Em 2010, aprovamos um financiamento para dar início a uma escola de cinema para crianças de 06 a 12 anos da rede pública de ensino de 3 comunidades periféricas da cidade do Recife. Aí começa a vida da Escola Engenho que se coloca como um espaço de formação continuada em audiovisual em resposta a uma lacuna na formação em audiovisual na cidade do Recife.

Se considerarmos que a maior parte dos cidadãos do futuro, que daqui a 20 anos estarão em plena atividade, está neste momento à frente de uma televisão, desenvolver criticidade diante das imagens é um ponto crucial no desenvolvimento de uma formação política que busca autonomia na relação estabelecida com a cultura, este termo tão multissêmico. E eis a grande contradição: as crianças são imaturas demais para pensar a imagem, para produzir imagens, mas não para consumi-las. Se a imagem é algo de difícil acesso para o entendimento de uma criança, porque permitir que permaneçam tanto tempo diante dela?

A escola é gerida coletivamente, pelos profissionais envolvidos e por membros da comunidade (ainda em pequena escala), e foi de forma coletiva que definimos as bases filosóficas e o horizonte metodológico desta ação que se coloca entre a cultura e a educação, com um forte caráter político-social: Trabalhar a cidadania através de valores que são próprios do fazer cinema como o trabalho em equipe, a colaboração e solidariedade, a capacidade de espera, de diálogo, a imaginação e a sensibilidade; Trabalhar a condição de sujeito de sua cultura, através de uma prática educativa voltada para a experimentação, aprender arte fazendo arte, descobrindo-na como uma forma de se relacionar com o mundo, possibilitando viver a condição de invenção de uma realidade;

Realização de ações extra-muros, voltadas para a ocupação dos espaços públicos e para a possibilidade de articular e comunicar-se para além da grande mídia, modificando assim sua percepção do mundo e seu escopo de ação diante dele; Ampliação do repertório cinematográfico dos alunos; Promover contato com filmes, exposições e eventos culturais na cidade.

Trabalhar com crianças definitivamente não é a mesma coisa que trabalhar com adolescentes e adultos, daí a escolha de um grupo de oficineiros que além de viverem a prática do fazer cinematográfico - um ponto muito importante, já que a interação com as crianças se dá voltada à experimentação e à criação - se colocam neste processo também enquanto aprendizes. Desenvolver uma metodologia para estabelecer uma conexão com o universo destes meninos e meninas é algo que vemos como um grande enriquecimento para as crianças e para os professores.

A escola engenho está sendo pensada e vivida ao mesmo tempo. Acreditamos estar construindo uma tecnologia de ensino reprodutível na escola pública tradicional, oferecendo o alento da invenção - algo tão característico da criança - a um sistema de ensino que deixa muito poucas brechas tanto na relação vivida com os educadores quanto na escolha e passagem dos conteúdos. Mas, experimentação e reprodução são passíveis de agrupamento? Funciona?

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história.Belo Horizonte: editora UFMG, 2003.

BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: Pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink; CINEAD-LISE -FE/UFRJ, 2008.

BRESSON, Robert. Notas sobre o cinematógrafo. São Paulo: Iluminuras, 2005.

DUSSEL, Inés et GUTIERREZ, Daniela. Educar la mirada: políticas e pedagogias de la imagen. Buenos Aires: Manantial: FLACSO, OSDE, 2006.

MABEL, Adriana. Fazer cinema na escola: pesquisa sobre a experiências de Alain Bergala e Núria Feldman. Revista contemporânea de educação da UFRJ. Volume 5, número 9, julho de 2010.

RANCIÉRE, Jacques. O mestre ignorante. Belo Horizonte: autêntica, 2010.

VELLEGGIA, Susana. La máquina de la mirada. Buenos Aires: Altamira, 2009.